quinta-feira, novembro 29, 2007

A via-crucis virou circo


Belo Horizonte me causou boas impressões nas duas corridas vezes em que estive lá. Coincidentemente, as duas no fim de dois anos consecutivos.
Cheguei sexta-feira da cansativa viagem de ônibus que começou na terça. Ao todo foram dois dias viajando, apenas um ancorada na capital mineira, e o tempo inteiro trabalhando. O mote da empreitada: filmar a ida dos alunos do Circo Picolino, de Salvador, a um espetáculo do Cirque du Soleil.
A maioria nunca havia saído da cidade e me parecia muito menos excitada com este detalhe do que eu, pelo que bem me lembro, quando da minha primeira viagem pra fora da Bahia. Eu tinha nove anos e foi tudo emoção pura: o avião, o ouvido doendo, a cabine, a aterrissagem, "estou no Rio de Janeiro, estou no Rio de Janeiro", repetia em pensamento, como se estivesse pisando em outro planeta.
A inexperiência dos meninos em grandes deslocamentos trouxe alguns incômodos. Meia hora depois da partida, a bagunça no ônibus estava instalada e a criançada abria freneticamente pacotes de salgadinho, biscoito, balas, refrigerantes, emporcalhando o que seria o doce lar das mais de 24 horas seguintes. Temendo aquele furor alimentar, mas também compreendendo eles - finalmente, senhores do próprio horário de merenda -, eu previ. Quando pequena, durante viagens de automóvel eu não podia comer uma azeitona que enjoava. Não deu outra: bem ao meu lado o menino resolve chamar Raul, no banco mesmo. Em certa altura eu até convivia com o aroma, mas senti saudade dele quando um infeliz cometeu o desatino de despejar Kaiak Aventura ali, criando uma alquimia maligna. Não posso mais me aproximar de ninguém que use este perfume – vou deixando aqui como aviso!
Na ida, paramos por um pneu furado perto de cruzar a fronteira do estado e, já nas Gerais, por falência do motor (a primeira de uma série, na volta). Com cada segundo cronometrado, nossa viagem por pouco não foi em vão: chegamos às 20h, exatamente a uma hora do início do espetáculo. Deu tempo de tomar um rápido banho, despejar as bagagens nos frios quartos do enorme alojamento de alvenaria do estádio do Mineirinho e rumar, a pé (em saltos de atleta), até a branca lona itinerante que o circo do sol tradicionalmente arma para abrigar seus espetáculos.
Os cinco primeiros minutos são emoção em estado bruto. Chorei até ficar com dó de mim, mas logo parei, pra desembaçar a vista e não perder nenhum lance. Alegria, o espetáculo que vi, é visualmente impactante: trapezistas de vôo, fogo, malabarismo, bambolês e fitas, coisas lindas voando, instrumentos de sopro acompanhando uma voz de anjo (ao vivo), piruetas, mortais de quatro giros, palhaços lindos, tanta beleza que os olhos não agüentam, fraquejam, desobedecem.
O dia seguinte já era o de voltar, e tudo parecia bastante tranqüilo. Nada como passar a noite paralela ao solo e numa cama que não balança. Tinha guardado bastante fita pra gravar o que a meninada tinha pra contar e voltei bem mais interativa, desfazendo parte significativa da minha cara de má.
Nas poltronas à minha frente, sentavam uma peste de sete anos e Talita, de 14, que às vezes parecia ter a idade da vizinha. Depois de eu ter feito a de sete chorar porque tomei da mão dela um ursinho e escondi, fingindo que tinha jogado pela janela, pra ver se ela ficava quieta - e ela foi falar pra coordenadora, que a fez esquecer tudo rapidinho e voltar pro lugar -, eu ouvi Talita dar o seguinte conselho ao tal projetinho de capeta que enxugava as lágrimas a seu lado:
- Você tem que rezar antes de dormir. Teve uma hora aí que você dormiu e começou a falar umas coisas estranhas, depois começou a chorar. Tem que fazer as pazes com Deus toda noite.
Sentada a meu lado, uma menina que dormiu no mesmo quarto que eu revelou sua recente admiração, me trazendo pro assunto: “Joana também não reza antes de dormir, eu reparei ontem... não sei como ela consegue!”. Respondi didática e musical: “Uns meus, uns teus, uns ateus, uns filhos de Deus”.
Ter visto o espetáculo do Soleil foi transformador, e muito mais o foi o contexto que envolveu minha ida: o contato com aquelas crianças, até então tão esparso. Valeu cada baderna dentro do ônibus na hora do meu sono, valeu a longa espera, cada dor nos olhos quando só o que me restava fazer era ler, valeu batucar no fundão, cantar Soweto, aprender cada letra de arrocha - entrar de vez naquela dança, afinal, se a via-crucis virou circo, eu estou aqui.

quinta-feira, outubro 25, 2007

Tudo brincadeira

Não era feia, mas as comparações que torturam a irmã mais nova de uma lindíssima garota começavam a despontar. Olhava as pernas macias e as mãos de mulher da mais velha e pensava que seus joelhos pontudos e unhas sujas jamais conseguiriam.
Esperava a outra sair para entrar num mundo só dela. Sorrateira, ganhava o quarto, mexia nos adornos da penteadeira, fazia a festa. Empoava-se toda, passava batom, calçava a Anabela da irmã e vestia uma roupa tão comprida que podia fingir de cauda de vestido de noiva.
Deitava então na cama cheia de almofadas, sem nenhum bicho de pelúcia. Feito madame, esgueirava-se até a cômoda para pegar um pequenino espelho e procurar um princípio de espinha - no dia que achou, ficou tão orgulhosa...
Achou também um esmalte, mas não pincelou as unhas porque a cor era forte demais, sua mãe brigaria. Mas, delicadamente, bordou uma quase imperceptível flor na unha do mindinho.
Neste dia sua irmã estaria fora por toda a tarde e ela podia brincar no sonhado quarto até cansar.
Talvez por isso ela, vendo-se calçada naqueles sapatos de pata de elefante, com aquela poeira toda na cara e um batom que mais fazia parecer uma palhacinha, num instante cansou da brincadeira, "deixa essa coisa toda pra outro dia", deu uma piscadinha pro espelho e voltou a ser menina arteira.

segunda-feira, outubro 22, 2007

A sina de Abelardo

Abelardo se achava um azarado no amor desde que deixou uma cigana revelar a sua mala suerte. Antes não, mas depois de lida a sua mão, nada parecia no lugar. Como o dedo de alguém no seu destino, como em uma novela - "Fado Tropical" -, as mulheres de sua vida de súbito ficaram morenas e lindas como as índias mapuches dos olhos de rio doce. Todavia, ficaram repentinamente loucas, algumas com desvario agudo, histéricas, outras com apenas um horizonte de mar perdido no fundo da retina. As doidas assim, mansas - qual filhas de Helena, a cria dileta de Suzana Flag em Núpcias de Fogo - eram as que mais abatiam o palpitante coração de Abelardo, posto que a loucura só lhes acrescentava mais graça.
Já passava das oito quando Abelardo, mirando os próprios olhos no espelho do banheiro, não sem um traço de loucura - veneno herdado dos amores, diriam - decidiu ser o senhor de seu destino. Procurou no oráculo da modernidade - no Google, que tudo ensina - os segredos e significados de cada linha da palma que agora enxugava o suor de sua fronte. Después, com um canivete ou uma peixeira de baiano, consertaria na tora o destino torto com linhas certas. Procuraria a falsa bruxa da Andaluzia, la mueça del tarot, a cigana do corazón de piedra e ordenaria que lesse agouro melhor.
O rasgo que a peixeira fez, segundo a leitura semi-analfa de Abelardo, fadava à sorte de um amor tranqüilo. Com essa certeza ele foi atrás da mulher. Primeiro, pela praia de Piatã. Depois na rodoviária, e lá estava ela, de vestido laranja, sandália de couro, sorrindo um canino de ouro.
- Buenas tardes - ele disse.
- Buenas, mi cariño. Quieres que leia su mano?
- Por supuesto - respondeu em portunhol selvagem, e estendendo a mão cortada, arrematou: - Quero que releia o destino a que usted me condenou.
A cigana tomou a mão de Abelardo, deu um grito, e com cara de espanto saiu correndo, entrou na pista dos ônibus e foi atropelada antes que pudesse completar: “Su destino será muy...”.
Coitado de Abelardo. Se a cigana pudesse prever a sina de amargura que o pobre gajo atravessaria, deixava pra morrer alguns segundos mais tarde. Pior do que carregar uma maldição é a incerteza de tê-la.
Abelardo hoje vaga em busca da cigana que decifre a sorte que ele mesmo desenhou – a última que consultou tinha olhos da cor do Titicaca e cabelos tão compridos que arrastavam consigo todas as folhas, pedrinhas, poeira dos cantos das ruas, de estrelas, sonhos de amores e segredos de alcova dos corações perdidos que encontrava pelas esquecidas veredas sulamericanas.

segunda-feira, outubro 15, 2007

O fiel arrependido

O fiel de uma Igreja negociava a venda de seu carro quando um conselho do pastor fê-lo parar e prestar atenção. Dizia o religioso que vendesse sim o carro, mas que doasse o dinheiro para o templo, num jeito de comprovar a fé ao Senhor ou de pagar o dízimo vitalício antecipadamente. Garantiu que ele muito em breve seria abençoado com ainda mais riqueza. Era certeza divina.
Convencido, o fiel doou seu montante ao culto sem titubear e esperou pela graça celestial. Passou dois dias sem sair de casa, sonhando que algum telefonema avisasse de uma herança milionária ou que o gerente do banco ligasse comunicando um misterioso depósito em sua conta.
Foi à Igreja imaginando que talvez a sua ausência nos ritos estivesse atrasando a chegada da recompensa.
Mas, ao cabo de um mês, nosso fiel caiu em si num vislumbramento; desconfiou como nunca dantes das intenções do pastor quando o aconselhou e chegou à amarga questão: teria ele sido vítima de um golpe?
Sua fé, que era sólida, naquele instante desmanchou-se no ar e ele partiu furioso à procura de um advogado. Sentia-se mais ferido do que lesado, posto que foi por crença e não ganância que decidiu afinal pela investida que o fazia agora um carro menos rico.
No tribunal, o advogado foi brilhante e o júri leu a verdade nos olhos do fiel, que acompanhava com recato o seu defensor e a defesa torpe do acusado. O caso estava ganho.
A Igreja foi condenada a pagar ao fiel o valor de alguns automóveis.
Neste dia, quando chegou em casa, o fiel relembrou cada detalhe da história e se assombrou. De fato ele agora estava mais rico, como sentenciara o pastor!
Uma imensa aflição tomou seu coração. Estupefacto, o fiel reconsiderou as decisões espirituais e decidiu, no dia seguinte pela manhã, comparecer à Igreja para a gloriosa redenção.
Mas quando chegou, foi recebido com nova surpresa: era agora a Igreja que o processava por calúnia, difamação, danos morais e materias... E a audiência seria naquela mesma semana.

segunda-feira, setembro 24, 2007

A estrela do cigarro


Os saudáveis, os puristas e o núcleo familiar leitor que me perdoem mas vou fazer uma apologia politicamente incorretíssima: o assunto de hoje é o cigarro e o discreto charme de se fumar. Não que eu ande fumando, pai, mãe (juro!), nem treinando. É que acho bonito e - pra contrariar o insuportável bombardeio anti-tabaco que entope meu juízo com imagens de bebês em potes, pernas gangrenadas e ratos mortos - acho até, de certo modo, inofensivo.

É claro que pessoas não fumantes como eu sofrem com a fumaça alheia. Passei o fim de semana, por exemplo, numa casa onde respirar significa desbravar a cada vez uma enorme nuvem cinzenta. E ela é mantida e constantemente renovada pelos cinco moradores que fumam pra dormir, pra acordar, pra beber, comer e fazer cocô. O lar exala nicotina e há poeira cinzenta e filtros por todos os cantos.

Entretanto, a impressão que me dá é de que meus pulmões fraquejam mais do que os deles. Falava disso hoje com um cara que entre uma baforada e outra em mim tecia sua deprimente teoria: “Você respira as mesmas quatro mil e tantas toxinas e mais o gás carbônico da tragada alheia; isso quando não respira a outra fumaça, a que não é tragada: ela é aspirada por você sem filtro, nem nada!”. Quis me convencer de que estou pior que ele. Não sei se conseguiu.

Vamos então ao charme. Admita-se que fumar é altamente sedutor! Milhares de jovens concordam e só por isso experimentam. Além disso, fumar é cinema. Se flagrada por luz lateral, a fumaça conota um mistério, uma tristeza esparsa. James Dean de jaqueta, olhos apertados, que lindo: entre dedos a estrela do cigarro. John Travolta cruzando a boate com ele no canto da boca - quanta habilidade: mais alguém a percebeu, entre os embalos de sábado à noite? A bonequinha de luxo, sempre com sua majestosa piteira. Sempre os galãs fumam, sacando lindamente seus maços pobres ou metálicos e sempre o filtro é pardo.

Agora, a confissão: eu bem que gostaria de fumar. Eu poderia. Combina com minha personalidade, com a noite, com tudo o que eu gosto. Lugares frios e bebidas quentes. Penso no charme, mas também na utilidade. Um cigarro para mim, quando sento só para não conversar e sozinha mesma me basto. O cigarro que faz companhia, que ocupa mãos ansiosas e arruma os pensamentos. Não é assim? É então um acessório e tanto. Vou treinar, quem sabe um dia.

terça-feira, setembro 11, 2007

É chegada a Despedida

Esperei muito pelo dia de hoje. Não com a agonia de quem risca as folhinhas do calendário, mas com igual intensidade e bastante imaginação.
Venho tentando assistir Despedida em Las Vegas há muito tempo. Parei de contar as vezes em que percorri locadoras em busca desse filme. Nas pequenas, nem rastro dele. Nas duas maiores da cidade, nada. Uma delas chegou a ter, em VHS, único exemplar, mas algum desalmado alugou e perdeu, estragou ou se deu de presente.
A primeira fagulha de vontade foi disparada por meu pai. “Você nunca assistiu a esse filme?!”, perguntava ele, forjando decepção – hoje entendo o propósito, para me preocupar, como se fosse um absurdo eu não ter assistido a algum filme aos 13 anos de idade.
A segunda foi durante a fala de um rapaz numa das muitas situações inesperadas que, quem me conhece sabe, só acontecem comigo.
Eu treinava judô há pouco tempo e a euforia dessa novidade ainda me fazia acordar cedo, me alimentar direito e treinar com o gás e a paixão de uma competidora.
Em visita a uma academia amiga, conheci um judoca viajante, vindo nem lembro mais de onde, que acabava de chegar a Salvador e não conhecia ninguém. Conversando depois do treino prometi, solícita, que o levaria à noite para comer num bom lugar.
A conversa no restaurante foi inofensiva, aos navegantes que imaginaram luz de velas e um bote do malandro lutador. Mas surgiu o papo sobre o amor e, diante da crueza de minhas declarações adolescentes, de quem nunca tinha vivido isso – ainda suponho que não vivi e na época sequer tinha tido um namorado -, ele perguntou se eu havia visto Despedida em Las Vegas.
- Meu pai já me falou desse filme.
- Menina, quando você assisti-lo, não vai precisar que mais ninguém tente te dizer o que é o amor.
Uau.
Agora o tenho nas mãos... Acabei de alugar e contei alegremente minha sina a todos com quem trombei na gigantesca megastore: “Você não sabe quanto tempo procurei por isto!”. Gosto de contar minhas historinhas e acho que eles gostaram de me ouvir.

domingo, agosto 12, 2007

Voltei a cantar



Parar de escrever em blog entrou pro rol das coisas que eu não posso parar de fazer. A menos que eu queira correr o risco de não voltar mais. É como malhar, estudar ou usar creme pro rosto. Você sabe que é preciso ter disciplina, então se organiza - no caso do creme compra os potinhos, um para o dia, outro pra antes de dormir - e pensa "Que fácil é ficar bonita!".

Entusiasmada, no primeiro dia você lava o rosto, toda minúcia, aplica o creme e sente a parada fazer efeito - rejuvenescendo mesmo! Ainda mais no meu caso: aos 19 adquiri uma poção anti-idade para as de 25. A revendedora avon, por sinal minha ex sogra, disse que não faria mal. Às vezes sinto um formigamento, de vez em quando é como se a pele estivesse em chamas, mas acho que é normal.

Então uma noite, depois de misturar cerveja alemã com cachaça seleta, você chega em casa inutilizada, acabada, jogada na valeta. Passa pelo banheiro sem mirar o espelho, despeja o xixi reprimido das moçoilas casadoiras que não se corrompem por qualquer banheiro da night e segue maquinalmente pra cama.

Sim, você dorme de maquiagem - aqueles quilos de pó e tinta preta se mesclando noite adentro numa alquimia goguenta - e acorda ao meio dia com gosto de cabo de guarda-chuva na boca, lembrando com pesar dos devaneios da noite e de que, "droga, já é domingo". O céu de Salvador, lindo como nunca dantes, te inspira um lamento pelo dia de praia perdido (mais um) - é a sua pele de jambo-girl também se esvaindo, amiga... outro suspiro.

Você confere a tela surrealista que o pincel de seus cílios estampou no travesseiro - era uma vez aquela fronha linda de cambraia de linho - e finalmente desbrava o banheiro, cheia de medo, coração aflito, mas pronta pra mirar a cara com coragem. Coragem, coragem.

Aquela semana de devoção e disciplina não passaram no primeiro teste prático, o da resistência física. Então adeus rotina cretina de cremes, adeus rejuvenescimento.

Com blog é menos drástico, mas igualmente devastador e de difícil recuperação. Vocês estão diantes de um esforço superior, meus caros. E quem viver verá quanto tempo durará!

domingo, junho 24, 2007

Do mérito das primeiras impressões

Toda vez acerto na mosca, mas nunca aprendo. O pré-conceito do meu olhar é imbatível e assim mesmo eu dou ouvidos a um anjo que me sopra toda vez: "calminha, nesse diagnóstico". Me basta um olho-no-olho de segundos pra capturar os segredos de alcova do objeto mirado. Eu olho os olhos de alguém e percebo do que se trata aquele ninho de intenções. Claro que isso de maneira precária, subjetiva, se viesse tudo traduzidinho, meu nome era Cigana Padilha e hoje eu estava lendo o fado tropical dos viajantes na rodoviária - o que não seria tão mal, ao menos tiraria uns trocadinhos, melhor lucro do que desta vidinha de blogueira pobre.
Elocubro, rapidamente, este pensamento depois de matutar a última decepção sofrida, fim se semana passado, São João. Culpa dessa costumeira falta de atenção à minha infalível mirada. Eu já sabia que se tratava de uma cretina, aquele ar de histeria contida não me enganava, mas o anjinho apaziguador me guardava, sentado em meu ombro, dizendo baixinho "teiquirise, Juanita". Foi na mosca: a maledita descascou injúrias gratuitas a minha doce pessoa. Aguentei firme e revidei altiva, bebi a parte de licor de jenipapo que me cabia e fui pular outra fogueira!

sexta-feira, junho 08, 2007

Pesadelo chique


Quando ouço “Monalisa”, canção de Jay Livingston e Ray Evans eternizada por Nat King Cole, lembro de minha irmã gêmea. A música fala de uma moça que é tão misteriosa quanto a do sorriso famoso. Sei que minha irmã não entende – as musas nunca entendem bem –, mas mesmo assim, de vez em quando eu canto para ela essa canção com meu inglês ruim e trocando “lisa” por Lígia – “Mona Lígia, Mona Lígia, man have named you…”.
Dias atrás, coloquei um disco de Nat para ouvir no banho, e quando tocou Monalisa, eu fiquei prestando bem atenção à letra. Nessa mesma noite eu li “O Pesadelo”, uma das sete conferências dadas por Jorge Luis Borges e transcritas em seguida para o imperdível livro “As Sete Noites”.
Não se trata de histórias de terror em si, mas de algumas acepções do tema. Em certa altura, Borges descreve o realismo que se configura nos pesadelos e o fato de que um pesadelo pode ser assustador mostrando qualquer imagem. Então, ele exemplifica com dois recorrentes pesadelos seus: no primeiro aparecem máscaras e espelhos; no segundo, um labirinto. Ambos podem parecer menos assustadores se comparados, na vigília, com uma imagem mais representativa do medo, como a do inferno. Mas se compararmos a idéia que fazemos do inferno, acordados, com a sensação real do horror que sentimos durante um pesadelo, o inferno não passa de uma simples câmara de tortura.
Tal mistura de impressões não poderia terminar de outra maneira: ainda nesta noite, eu tive um pesadelo com Nat King Cole!


Contado, meu pesadelo não terá efeito, mas naquela hora pareceu tenebroso.
Não sei onde eu estava, acho que chovia. Havia um policial que me acompanhava na investigação de um assassinato. O clímax do meu terror era eu dar com a morta ensangüentada. Eu era uma peça importante porque conseguia decifrar as entrelinhas do que dizia a letra de uma canção - Monalisa, que no sonho era de autoria de Nat King Cole -, a principal pista do crime. Descubro no fim que ele assassinara a musa inspiradora, uma mulher por quem era apaixonado.
Lembro de ler a letra no sonho e, pensando comigo, matar a charada: “Só um homem tão apaixonado seria capaz de matar a mulher!”. É uma loucura, mas no meu sonho pareceu perfeitamente verossímil...
Quem manda ler textos sobre pesadelo antes de dormir?!

Porque um cavalo? - Na verdade é uma égua. Ainda em "O Pesadelo", Borges expõe sua maravilhosa pesquisa sobre a etimologia de pesadelo em diversos idiomas. Em vários, a exemplo do latino incubus e do grego efialtes, as palavras são nomes de demônios que inspiram o pesadelo. Em espanhol, é parecida com português, pesadilla. Porém é a língua inglesa que possui o vocábulo mais sábio e mais misterioso, nightmare, que Borges, apoiado nos versos de Shakespeare, acredita descender de night mare: égua da noite. Nos versos de Shakespeare: "I met the night mare", "encontrei a égua da noite", ou ainda: "the nightmare and her nine foals", "o pesadelo e seus nove potros", em que ele vê o pesadelo como sinônimo de égua.

E porque se fosse cavalo, eu botava o desenho em azul.

sexta-feira, junho 01, 2007

Uma cilada para a analista

baseado em fatos reaiss

O homem chegou no escritório da analista quando faltavam cinco minutos para a consulta começar. Sentou-se, ofegante, e sem saber o que fazer com aquele tempo, puxou uma das revistas para o joelho e começou a folheá-la sem muito interesse. Havia apenas ele e a recepcionista na sala de espera. Lembrou-se de ter lido que pacientes de analista evitam permanecer muito tempo nos consultórios para que ninguém os flagre. Chegam quase em cima da hora e partem imediatamente depois que a sessão termina.
Sem querer, os olhares dos dois cruzavam a toda hora, e isso começou a incomodar muito o homem. Tinha alguma coisa na moça que não o agradava. Achava o seu olhar insolente. Em seis anos de análise, ele nunca sentiu vontade de trocar palavras que não fossem referentes à sua condição de paciente e à dela de recepcionista.
Mudou de lugar, expirando sonoramente como quem esvazia de uma só vez o pulmão inteiro, de modo a fazê-la perceber o seu incômodo. Sentou-se dando-lhe as costas.
De repente, ela rompe o silêncio para dar um aviso: a Dra. Rosa estava presa num engarrafamento e poderia se atrasar. Surpreendido, ele fez que entendeu, balançando a cabeça rapidamente, mas depois, recompondo-se, morreu de raiva por ela ter falado com cortesia. Não queria cortesias daquela insolente; na verdade queria ter ouvido uma grosseria e ter um motivo para destratá-la de volta, dizer-lhe algo. Fazê-la perder o emprego.
Começara a suar e a balançar as pernas. Suava e balançava as pernas quando ficava nervoso e sabia que a recepcionista conhecia esses sintomas, que anunciavam as crises de outrora. Ele podia jurar que, naquele instante, havia um sorriso de ironia na cara da moça, como se ela julgasse patética a sua agonia. Ele há muito tempo não ficava tão nervoso assim.
Estupefato, ele irrompeu com o dedo levantado e foi em direção ao balcão, gritando:
- Olhe, eu me cansei da sua cara me olhando desse jeito!
- Senhor... por favor, acalme-se! – respondeu, paralisada.
- Acalme-se uma ova. Eu percebo quando você me olha com essa sua cara sonsa. Acha que eu não sei o que você está pensando? Você deve contar a todos, às risadas, que trabalha num lugar onde um paciente maluco aparece de vez em quando para dar suas crises.
Ela já estava interfonando para a segurança quando Dra. Rosa entrou na sala. Devia ter mais de setenta, mas era jovial e tinha a aparência muito saudável; usava um tailleur de linho cinza escuro listrado de preto, os cabelos presos num coque impecável e um par de brincos de pérola. Olhou para aquele homem que berrava e transpirava como um porco que se sabe prestes ao sacrifício e ordenou-lhe, em tom baixo:
- Sr. Aderbal, queira por gentileza dirigir-se à minha sala.
Dentro dela, a doutora fez o nervoso paciente deitar-se no divã. Àquela altura, Aderbal estava com os parafusos da cabeça qual peças perdidas dentro de uma gaveta de ferramentas. De repente, não sabia onde estava; olhava para a doutora e perguntava o que fazia ali. Sequer lembrava-se de seu imbróglio com a recepcionista, minutos atrás. Parou de falar e ficou com a vista imóvel, como se percebesse algo além das janelas da sala. Então sentenciou:
- Gostaria de ir embora. A senhora poderia discar para o piloto do meu helicóptero?
- Que helicóptero, Sr. Aderbal? – respondeu ela, indiferente - acostumada -, enquanto preparava uma injeção tranqüilizante.
- O MEU helicóptero! Eu só saio daqui nele.
“Mais essa agora”, pensou a doutora. Não havia helicóptero algum. Ela tentou aplicar-lhe a injeção, mas o homem reagia mal. Delirava: "Você quer me dar um sonífero para depois roubar o meu helicóptero!". Não queria saber de outra coisa. Enquanto ele bradava pelo paradeiro do veículo, Dra. Rosa pensava no expediente, que terminara duas horas atrás.
Cansada, de súbito, a doutora resolve abandonar seus métodos e declara com o tom sereno de sempre:
- O trânsito de helicópteros hoje está um inferno. São seis da tarde e está o maior congestionamento sobre esses prédios... Ou você acha que é o único que tem helicóptero? Dessa vez você terá que ir pra casa de carro. Quer uma carona?
O pólo sobressaltado, o alter ego da personalidade em crise pôs-se imediatamente em seu lugar, desarmado de argumentos. O moço ficou tão calmo que deu até para aplicar a injeção.
Nada como uma eventual volta à velha psicologia, aquela politicamente incorreta mas que funciona sempre!

quarta-feira, maio 23, 2007


O Gorgulho

Certa vez, quando revirava tranqueiras esquecidas nalgum canto de minha casa, deparei com uma montanha de revistinhas de uma antiga coleção de minha mãe, talvez as sobras da livraria do tempo de meus pais casados. Meio ao acaso, peguei uma Chiclete com Banana, velha revista de quadrinhos e textos feita pelo Angeli e outras feras. Naquela edição eu encontrei um pequenino texto que marcou a minha vida. A revista se perdeu entre as arrumações e empréstimos que vivo fazendo, mas alguns trechinhos da história carimbaram para sempre a massa acinzentada desta que vos escreve.
A trama é simples: trata-se de um gorgulho (aquele bichinho que dá em sacos de macarrão guardados por muito tempo) cansado da monotonia vegetariana e da vidinha mansa entre sacos de cereais. Um dia, esse "penseroso coleóptero" decide expandir seu horizonte gastronômico. Ouvira falar do sangue, iguaria rara de muitas propriedades nutritivas e tentara imaginar que sabor teria. Pensava, curioso, na maravilha suculenta de um jorro rubro a lhe inundar o paladar... Hummm! Solitário e dotado de notável esperteza, o Gorgulho parte para espetar o próprio abdome com o seu bico-lança, provando do seu sanguinho e tornando-se assim um gorgulho auto-suficiente! Não é genial?
Meu achado deve estar fazendo seu terceiro aniversário. E desde que aprendi a usar a internet que venho tentando, através do oráculo Google e de outros tantos, entre combinações impossíveis e vãs palavras-chave, encontrar algo que me leve de volta àquela linda historinha, tão curtinha e tão memorável. Mas até agora nada encontrei.
Semana passada eu li o Livro de Versos de Rubem Braga (Edições Pirata do Recife), uma grande leitura. O prefácio, feito por um amigo seu cuja alcunha agora me foge, comenta uma crônica em que o escritor relata ter gravado, sem mais nem porquê, alguns versos do colombiano Aurélio Arturo: "Trabajar era bueno en el sur, cortar los árboles, hacer canoas de los troncos". Braga lembrava disso em várias ocasiões de sua vida; de repente, ao fazer algo, os versos lhe ocorriam. Versos compostos por palavras simplórias e cotidianas, mas que o tocavam profundamente. Ele arremata o texto tentando decifrar o indecifrável, que seria onde se esconde o mistério da poesia.

No prefácio, seu amigo completa com uma informação surpreendente: um dia, em viagem à Colômbia, Braga ganha de presente de amigos poetas uma antologia de Arturo. Imediatamente ele se lembra e começa a recitar aqueles versos: “Trabajar era bueno...” e os amigos, ao ouvir, recitam junto com ele, em coro. O mesmo poema de palavras simples havia marcado a vida de várias pessoas.
Claro que ao ler isto eu lembrei da história do meu gorgulhinho. Será que outro que leu também lembra dele? Como com Braga, um texto simples me marcou por algum motivo que não sei bem qual, talvez pelo humor, não sei. Pena eu não me lembrar sequer o nome do autor.
Há duas semanas, fiz um poema que fala de um tamanduá que resolve virar vegetariano, bem o oposto do meu sanguinolento coleóptero, e há um mês, mais ou menos, tentei escrever também uma continuação pro Gorgulho, ele em nova peripécia, dessa vez arranjando um amigo gondoleiro que transporta sacos de mantimentos nos porões de uma embarcação pelos canais de Veneza – finérrimo! Pensei em sacos de pistache. Será que gorgulho come pistache?