segunda-feira, fevereiro 26, 2007

Ensaio literário


Hoje, dentro do ônibus, quando voltava pra casa, voltei a pensar na crônica de amor que comecei a escrever dias atrás. Está parada num diálogo que não flui, como o que eu descrevo na própria trama. Nunca foi tão difícil escrever uma simples linha. Lia e apagava, tudo parecia tão artificial. Lia novamente e trocava um verbo, depois apagava o parágrafo inteiro. Apagava tudo e recomeçava, depois de já lamentar ter apagado.

Conheci recentemente o meu provável contista preferido para toda a vida, monsier Guy de Maupassant, através do soberbo Bola de Sebo e outros contos. Não é escrita, é um bailado. Ele descreve as personagens e seus conflitos com tanta leveza e ao mesmo tempo com tanta densidade que nos faz pensar que os parisienses do século XIX são nossos contemporâneos. Ele descreve Paris e revela os tipos humanos com suas sutilezas, deixando o conto tomar vida com uma linguagem simples, na medida perfeita, sem exageros, mas com tanta minúcia que parece ter estudado o mundo durante três encarnações para escrever.

Além de leitora e amante do gênero - o gênero dos preguiçosos, como ouvi muito falar sobre os chegados a contos; admito que, às vezes, livros grossos me cansam só de olhar e numa coletânea, começo sempre pelos menores, contando as páginas no índice! -, eu sou uma voraz observadora de estilos descritivos. Muito pelo encanto pela língua, mas muito mais pela vontade de escrever com naturalidade. Com base em poucas regras e no meu gosto, eu me deparo com um texto qualquer e reconheço se há nele uma sinceridade, que é uma espécie de coerência, se é que alguém me entende.

Sei que o bem escrever é perfeitamente ensinável em muitos pontos. Mas escrever ultrapassando a técnica é questão de faro, de tino. Li uma vez que escreve bem quem pensa, logo, se você pensa, escreve. Existem brilhantes poetas que não sabem escrever, mas sabem ditar, ou seja, têm em mente versos encadeados sem precisar desenhá-los...

E a crônica de amor?


Fui pensando no destino deste rebento sem pai, que empacou qual uma mula, enquanto escrevia neste instante. Decidi por uma idéia inovadora, pelo menos no La vie en close. Sei que um blog encanta seus mentores pela possibilidade de interferências externas, que inauguram uma relação muito louca de cumplicidade e de troca imediata de idéias. Borges disse que um escritor só se livra de uma obra quando a publica. Publico e me livro, pois, de um texto interminado para que vocês me ajudem a contar como termina, já que essas duas personagens não quiseram me dizer mais nada. Se disserem algo a vocês, compartilhem, por gentileza.

Sem mais delongas:


Encontro casual



Alguns meses atrás ele havia aprontado poucas e boas e ela conhecera todas as dores do amor.
Naquela tarde ela o viu e deixou que a visse em belos meneios. Olharam-se em frente ao escritório dele, num dia de sol quente. Cumprimentaram-se com surpresa:

- Você por aqui! Quanto tempo...
- Verdade, quase um ano. Como está você?
- Eu estou melhor do que nunca.

Ele achou conveniente convidá-la para se sentar. A ocasião pedia, embora a atmosfera anunciasse uma conversa pouco fluida, como quando se tenta um diálogo com naturalidade com pessoas de que não se gosta ou de quem se tem algum receio. Estavam em um boteco charmoso, decorado com madeira, caseiro mas sofisticado, onde Jorge tomava um chope todos os dias antes de voltar para casa. Ele pediu dois naquele dia.
Ela estava diferente, mais elegante, cabelos cortados e soltos. Tinha um ar renovado. Engordara um pouco, talvez dois quilos ou três, parecia ainda mais graciosa. Na cara dele o indisfarçável cansaço dos que trabalham sentados e, ao se levantar, parecem sempre carregar o próprio corpo como um saco de areia. Estava pálido, havia engordado deselegantemente e uma careca precoce já se ensaiava no topo da cabeça.
Jorge era um rapaz esperto pego de surpresa. Até sentar-se, não pôde conter nenhum indício de que não estaria tão bem. Suava e não encontrava assuntos, enquanto ela sorria, melindrosa, dando demorados goles, se abanando e olhando ao redor. Ele a entendia e observava como pairava em tudo o que ela dizia o ar de quem, numa disputa, sabe que está ganhando.
Ela o fitava sem medo, mas um olhar diferente revelou o momento de deixar os assuntos cretinos de lado. Ela começou:

- Estás namorando?
- Sério, assim, ninguém. E você?
- Estou com o Roberto.

Por muito pouco ele não tossiu com o gole que atravessava a garganta. Perguntou se era... aquele Roberto, e era o próprio. O rasgo de um ciúme adormecido correu o seu peito e ele quase se destrambelhou nas aparências.

[...]

segunda-feira, fevereiro 12, 2007

Sobre João Hélio Fernandes

A Rainha é um filme estrelado tão bem por Helen Mirren que, em certos momentos, faz a gente pensar que ela é a própria Elizabeth. O tempo é um recorte do episódio da morte de Lady Di, em um acidente de automóvel, em 1997. Diana, como se sabe, era separada de Charles e não mais pertencia à família real. O filme apresenta, no interior da diplomacia dos poderes, vários pequenos conflitos diante dessa situação sem precedentes - uma "ex" princesa - expostos através do tórrido temperamento inglês, que não derrama uma lágrima e enxerga humor nas tragédias.


Ex princesa, mas que tinha o título conservado em menções no mundo inteiro. A rainha se via então em uma série de problemas, a exemplo de ter que decidir entre um velório com a pompa de uma morte real, contrariando um milênio de tradição, e o enterro em uma "vala comum", causando repercussões das mais diversas. Enquanto isso, cuidava de outra questão delicada: os dois órfãos que Diana deixara. Com efeito, deixou que a avó falasse antes e fez com que os jovens passassem pelo terror da maneira mais branda possível, longe da exposição e de aborrecimentos.

Viaja com os netos sem dar maiores explicações e enfurece o povo inglês, que interpreta como descaso o que ela, numa boa intenção, pensou estar agindo da melhor maneira. A maneira como achava que uma rainha devia se portar, vestindo o luto silencioso e cumprindo o seu papel antes. Antes o dever, sobretudo para ela, que tinha a vida inteira prometida a ele.


///




Não vou me alongar na descrição do caso por dois motivos. Um deles é que seria redundante, dada a imensa exposição e o conhecimento absoluto sobre o caso. O outro é que tratar disso se tornou uma tarefa insuportável para mim, por outros dois motivos (vão me perdoando pelas ramificações): um, porque sempre me sinto muito mal. O caso é de dar vertigem, de embrulhar o estômago de um bárbaro. O exercício da alteridade, aquele que diz da capacidade de se colocar no lugar do outro, para este caso, eu não recomendo muita intensidade. Não para o menino, não para o lugar da mãe do menino. Não para quem viu nem para ninguém.

O segundo motivo é simples e franco: não suporto meus próprios pensamentos. Sinto vergonha ao me ver ávida por notícias terríveis, percorrendo os informes do horror, querendo, de certa maneira, fazer drama, "novelizar" uma coisa real e tão grotesca. Mas acontece. Quando vejo, lá estou eu à procura de mais sangue, atrás de um novo aperto no peito, de sentir os olhos marejarem sabe lá para que fim, para me provar que coisa.

Serei eu um monstro? Serei eu a única?

Surgem aos borbotões novos lances no Google e novas comunidades no orkut relacionadas à tragédia do menino. Em menos de uma semana, treze mil membros de uma comunidade virtual inteiram um fórum ativíssimo de discussões. Muitas demonstrações de solidariedade e toda a natureza de comentários - a maioria eram pessoas se articulando para efetivar sua revolta. Entre eles o seguinte tópico, a esta altura excluído: "Virou carne moída!", em que o autor anônimo declarava em caixa alta a vontade de ver a "imunda prole da classe média" sofrendo o mesmo fim. Em outro, um apelo desesperado pelas fotos do garoto esfacelado (esse mostrava a identidade).

Gosto de observar como se formam as inflexões do sentimento coletivo. Para um formato de povo, um formato de notícia: difícil decidir quem ditou primeiro. Fátima, a brilhante, é designada a cumprir os papéis de peão entrevistador nas horas em que o bicho pega, quando não pode haver falha alguma. Delicado, veja, ela é mãe também, sabe o que está fazendo. É tão brilhante que carrega uma aura imponente mesmo de cara pros pais órfãos do menino, que entrevistou para o Fantástico neste último domingo. Não é estranho?

Detesto as conclusões rasteiras que demonizam a rede Globo, atribuindo a ela a culpa das deficiências de opinião do povo. Mas a TV no Brasil representa um caso muito especial. Ela é a única verdade e a única conexão com o mundo pra milhões de pessoas. Além de tudo, é linda, emblemática, misteriosa. Um tubo louco de imagens perfeitas onde as pessoas e suas falas são belas. Então o indivíduo, o analfabeto de Brecht, tenta aproveitar, tenta viver desse jeito tão bonito. Transforma-se, vendo as novelas que dizem imitar o seu cotidiano. A televisão adestra, ele dança, copia, se balança com a maré que brinca com os seus sentimentos: "Carro pega fogo com pessoas no porta-malas..." e em seguida: "Esporte! O Corinthians enfrenta o São Paulo...". E dá-lhe bailado, dá-lhe teatralismo. Uma alfinetada nessa pobre alma pra ver se a acorda, por gentileza, para ver se existe vida antes da morte! É assim.

Generalizações são burras, mas eu luto pra não condenar a passionalidade dos trópicos quando lembro o que ocorreu em Madri, há alguns anos, em épocas de atentado terrorista. Dias depois do desastre, estava articulado um movimento nacional em protesto pelo acontecido. Gigantescas passeatas em marcha silenciosa, em luto profundo. Uma conhecida relatou a mim a vontade que teve de fotografar. Mas lá estava ela, com a câmera em riste, qual um fuzil apontado pra cabeça de quem não teme perder a vida. Pareceu estúpida demais e não teve coragem de registrar.


quarta-feira, fevereiro 07, 2007


Aracaju, bon voyage

Viagens de última hora têm tudo pra dar certo porque não deixam tempo pra se imaginar muita coisa. Tudo o que vier é lucro, e ainda na pior das hipóteses, uma viagem sem gracejos vira pauta pra uma conversa distraída ou assunto pra um desses blogs perdidos na vida. "A expectativa estraga os filmes", penso eu, todos os dias, “assim como quase estragou meu venerado Pulp Fiction”. Resgatei-o, anos mais tarde, pensando retificar a estréia falida e me surpreendi: com a vista serena, percebi sem exageros como é deliciosa a trama. E foi assim em Aracaju, cidade que sempre imaginei insossa, mas de onde voltei saudosa neste último domingo.

Na quarta-feira cinza, mezzo tediosa, mezzo calabresa, meu amigo que edita filmes me assalta com uma proposta imperiosa:

- Vou pra Aracaju com meu primo neste fim de semana, quer vir?
- ...
- Festival de graça com Titãs, Vanessa da Matta, Pato Fu e Lenine.
- Hum, que massa! Mas como vamos?
- Ah, aventura, Jojo!
(Palavra perigosa. Acho que ele está me desafiando.)
- Vamos, claro!

A viagem seria na sexta. Adiei, não propositalmente, minha resposta pro último minuto, deixando suspensa no ar uma pequena tensão – o tempero. Partimos pra Aracaju, desviando do caminho pra agregar um quarto elemento e seguimos, todos à bordo do revolucionário Pancho Villa, cabra experiente, conhecedor de causa e das regras herméticas, milhares de quilômetros rodados.
Lá chegando, fomos acolhidos por uma boa alma. O festival, na orla de Atalaia, foi primoroso. O show de Lenine teve até (d)efeitos sonoros: de repente, um apagão sinistro de som e luz que só voltou 15 minutos depois, enquanto ele tentava entreter o público já disperso apontando, doido que só, pro céu de lua cheia.

No fim do show, todos de bundinha na areia filosofando bonito sobre as teorias do amor, quando acontece essa maravilha:
- Ah, ah, ah, ah, ah.
- ???
- É niuma, é niuma. É niuma véi! – disse ele, que brotou do nada ao meu lado, falando através do último dente, enquanto pedia minha mão. Hesitei um segundo, dei a mão e entramos todos no clima:

- É niumaaa!!! É niumaaa! Ô véi é niuma!!!
- Ah, ah, ah, ah. Ainda tem show lá???
- Vá, véi, tem, véi! Mas é niuma!!!
- Ah, ah, ah, ah, é niuma, é niuma! É niuma!

O resto fluiu na maciota. Cervejinha, sol brando, praia e água de coco, embora eu só tenha entrado no mar sergipano cor de barro mesmo pra pular as sete ondinhas, e ainda por pouco tempo, nos últimos minutos do dia de Iemanjá - creio eu que tenha dado tempo. Entre "joanices" (não conhece? É um neologismo que classifica atitudes de, digamos, fácil compreensão) e muita risada, voltamos pra casa, acho que todos bem felizes.

segunda-feira, janeiro 29, 2007

Você conhece a Céu?

Ah, você precisa dela. O mundo precisa. A França já precisava, enquanto a gente nem sabia quem é.

Céu é uma jovem paulistana e dona de uma voz deliciosa, nova, malandra, completamente sedutora. Inteligente e talentosa, mescla samba de raiz e grooves africanos às tendências high-tech da música do mundo, com refinamento e delicadeza. É maestra, ainda menina. Abriu, elegante, um grande festival europeu de jazz em 2006 cantando uma música sua com a Orquestra Sinfônica de Amsterdã. É a nova paixão de Caetano e a promessa de muitos para um novo grande nome na música brasileira.

Disseram que tem música dela em uma novela, foi aberta a brecha. Ou a chaga, pra esses tempos modernos em que a pérola exposta perde um pouco do charme depois de aberta a ostra. E você, ainda não a conhece? Ora...

http://youtube.com/watch?v=IbhSJyg69W0

(no dia em que o blogger fizer tudo o que eu mando, como despachar educadamente os links que eu coloco aqui, eu deixo tudo bem arrumadinho, prometo)

Essa é "Malemolência", canção de autoria de Alec Haiat e Céu. Este é o trecho de um show no programa Ensaio, da TVE, que passou não sei quando.

segunda-feira, janeiro 22, 2007



Problemas com meu septo nasal

Fui à médica das vistas hoje à tarde. Depois de tantos anos, tinha quase esquecido de como são entediantes essas consultas, o interminável arder de olhos, a demora, os incontáveis vai-e-vem, o “volta”, “senta aqui”, “encosta bem a testinha, meu bem, mais um pouco, isso”. Fora a cegueira temporária, lastimosa, as pupilas em flor, as lágrimas de madalena, tudo isso na hora em que eu, aos suspiros, tentava enxergar um pouquinho do García Bernal, o santo colírio pros olhos, com aquelas falas de menino lindo, impávido, tranqüilo, estampadas em uma das vistosas entrevistas da revista Oi.

Pois bem. Rumo à ótica encomendar meu novo rebento de meio grau no olho esquerdo e nenhum no olho direito. Avisei que não queria nada muito chamativo, mas não queria nada também flutuante, sem graça, invisível. Falei que gostaria de uma armação escura, mas que a depender do estilo, poderia ter uma cor alegre.

- Por favor, nada de oclinhos estilo vogue, com um dedo de largura na perna, que eu não quero ficar com cara de besta.

A caríssima me trouxe cinco ofensas. Tive que me levantar pra escolher por conta própria. Peguei cinco, clássicos, sóbrios, discretos, com cara de nada, do jeito que uma moça séria deve usar. Sentei de frente pro espelho e lembrei de Danuza, que maldisse certa vez as luzes escandalosamente brancas dos elevadores comerciais que acabam com a auto-estima de qualquer moçoila, acusando aos berros os cravos nossos de cada dia. Iluminada, me pus a experimentar os brinquedinhos e, antes que eu pudesse falar “gostei desse”, a moça me vem com essa:

- Ah, esse não ficou bom. Você tem o septo nasal grande.”

Meu Deus!!!!!!!!!!!!!!!!

“Você tem o septo nasal grande”, corta para a cena do povo visitando o Homem-Elefante. “Você tem o septo nasal grande”, corta para os médicos o avaliando: “Hum, elefantíase" (hum, septo nasal grande). Meu Deus!!!

- Você tem o septo nasal grande, por isso os óculos não assentaram.

Ah, ta.

- Eu sabia. No fundo eu sabia que tinha algo de errado com esse nariz.

- Peraí, pega esse aqui e experimenta. Aí, ta vendo? Esse ficou bom.

E não é que ficou, menina, “equilibrou as minhas linhas faciais”, “suavizou os meus contornos”, “deu um toque irreverente no meu look”. Ui!

sexta-feira, janeiro 19, 2007

Jovem pede escudo de time, mas tem surpresa

Imagine que você é um jovem torcedor argentino apaixonado por seu time. Passa anos torcendo, vibrando a cada partida, sofrendo com cada derrota. Coleciona pôsteres e grava fitas com os melhores lances. Imagine também que você sempre quis ter uma tatuagem, mas não lhe ocorria um bom motivo. De repente, você enxerga a possibilidade de unir essas duas coisas em algo que tenha um significado igualmente especial na sua vida: uma tatuagem do escudo do seu time!

Você, cabrón, vai corajoso ao tatuador e decreta: “quero o escudo do Boca Juniors aqui, nas minhas costas!!!”. O tatuador pede a você que se acomode e começa a sessão. Bzzzii! Bzzzzzii!! “Dói, mas vai ficar massa”, você pensa. Terminada a sessão, você, afoito, pede ao cara para ver no espelho, mas não tem espelho. Vai correndo para casa. Chega, ofegante, e reúne a família, "Quero todos aqui". É surpresa. Liga para seu avô, o patriarca das gerações de torcedores. Chama os vizinhos e pede pra esperarem. Convoca amigos e amigos de amigos.

Sala cheia, olhos atentos, um acontecimento. Você anuncia: “Eis aqui, amigos e queridos desconhecidos, algo que eu sempre quis ter estampado, para mostrar ao mundo inteiro a coisa de eu que profundamente gosto”, e, de costas, tira a camiseta. Vê as caras de espanto. Confuso, você corre para finalmente ver seu objeto de louvor no espelho, e o maledito te revela a obra-prima do tatuador mais sacana, brasileiro na certa, esse escroto, que lhe rabiscou no meio das costas não um escudo, mas um pênis e dois enormes testículos! Buuuniiito, hein argentino?

terça-feira, janeiro 09, 2007

Histórias de mabaças



[São Cosme e São Damião, do alto de seus tronos diminutos, não imaginariam se tornar o pivô de meus pensamentos em plena segunda feira de ardiloso labor - um dia de verão, para mim, irritantemente ensolarado.]

Trago duas historinhas com a ajuda da memória e do wikipedia:

1. Os relatos sobre os santos gêmeos atestam que eram originários da Arábia, de uma família nobre de pais cristãos, no século III. Estudaram medicina na Síria e foram praticá-la na Egéia e Ásia Menor. Diziam: "Nós curamos as doenças em nome de Jesus Cristo e pelo seu poder". O culto aos dois irmãos é muito antigo e há registros sobre eles desde o século V. Os escritos relatam a existência, em certas igrejas, de um óleo com o seus nomes que tinha o poder de curar doenças e dar filhos a mulheres estéreis. Seus nomes verdadeiros eram Acta e Passio. Surgiram várias versões para suas mortes e uma delas explica que os irmãos realizavam milagres e, por isso, foram amarrados e jogados em um despenhadeiro sob a acusação de feitiçaria. Em outra versão, na primeira tentativa de morte, foram afogados, mas salvos por anjos. Na segunda, foram queimados, mas o fogo não lhes causou dano algum. Apedrejados na terceira vez, as pedras voltaram para trás sem atingi-los. Por fim, morreram degolados.

2. Ártemis, deusa grega da caça e da vida selvagem, saiu primeiro da barriga de Letó e pôde inaugurar seu título de deusa dos nascimentos auxiliando no parto de seu irmão gêmeo Apolo. Zeus, seu pai, presenteou-a com uma corte de ninfas que, como ela, escolheram a castidade e fê-la rainha dos bosques. Uma lenda conta que ela se apaixonou perdidamente pelo jovem Órion e, se dispondo ao casamento, provocou a fúria de seu ciumento irmão. Apolo impediu o enlace mediante uma grande perfídia: achando-se em uma praia, na companhia da irmã, desafiou-a a atingir com a sua flecha prateada um ponto negro que indicava a tona da água e que mal se distinguia, devido à distância. Ártemis, vaidosa, retesou o arco e atingiu tranquilamente o alvo, que logo desapareceu no mar, fazendo-se substituir por uma mancha ensangüentada. Era Órion que ali nadava, fugindo de um imenso escorpião criado por Apolo para persegui-lo. Ao saber do desastre, Ártemis, desesperada, fez com que o pai transformasse a vítima e o escorpião em constelação. Assim, quando a constelação de Órion se põe, a de escorpião nasce, sempre o perseguindo, mas sem nunca alcançar.


///


Histórias sobre gêmeos, não sem motivo, sempre me causaram encantamento. Mas poderia tranquilamente não causar, se considerado o sem número de vezes em que tive que parar para responder a perguntas do tipo: "quando uma fica doente a outra também fica?", ou "vocês lêem o pensamento uma da outra?". Ainda a mais freqüente e estupefante de todas: "como é ser gêmea?". Aprendi a retrucar: como é não ser gêmea, se já nasci assim?

O recente nascimento de gêmeos ingleses, um branco e o outro preto, foi manchete por dias nos jornais do mundo inteiro. Embora não corresponda exatamente a um exemplar motivo jornalístico - afinal, como aprendi com minha madrinha de blog Alessandra Alves, o que é notícia não é o cão que morde o homem e sim o homem que morde o cão -, acabo de saber que tal ocorrência é das mais remotas possibilidades matemáticas, sendo inferior a um em um milhão de eventos.
Jornalistas de plantão enumeraram pelo menos cinco recentes casos como esse, mostrando que o acontecido não é manchete tão incomum quanto aparenta.

Para provar a ausência de ineditismo, venho partilhar uma outra história que se iniciou em terras brasilis (em terras soteropolis, pra ser precisa) há exatos dezenove anos. Há este tempo, século passado, ano de 1987, nasciam gêmeas de cores diferentes na cidade do Salvador. Uma branca e a outra preta. O caso despertou espanto na maternidade e um pacto comunhando o silêncio entre os presentes teve que ser feito, a fim de evitar devaneios acerca da moral dos pais e suas crianças. Na agitação, uma pergunta: como esconder algo tão evidente? Tudo era sugestões e soluções mirabolantes naquela improvisada sala de justiça. Diante do problema que urgia por uma saída, uma testemunha sensata elegeu quatro das possibilidades mais providenciais. Analise:

1) Forjando um suposto tratamento de icterícia (doença pouco grave que ataca recém-nascidos), Joana seria submetida a severos banhos de sol de meio dia bezuntada em óleo de urucum com beterraba, enquanto Lígia receberia abrigo absoluto de luz, exceto depois de mergulhada (até o calcanhar) numa bacia de Coppertone;

2) Como era esperado um casal ao invés das duas meninas - verdade verdadeiríssima, houve engano na ultrassonografia e era pra ser Lígia e Victor! Pense que por anos eu sofri a dor de saber que meu nome foi escolhido ao léu, assim, às pressas - podia-se alegar troca nos berçários, criando de brinde o mote pra um posterior novelão no Fantástico;

3) Depois de passar a primeira infância coberta por véus e tecidos, Lígia, ao atingir certa idade, viajaria pelo norte da África ou por ares australianos onde, em contato com aborígenes, adotaria pinturas tribais como devoção religiosa e voltaria ao Brasil pronta pra conviver com a hermana sem levantar qualquer questão;

4) Portadora de raro caso de fotossensibilidade, o bebê Joana seria mandado para os Alpes Suíços onde poderia crescer com mais conforto. Ao cabo de vários anos, curada e de volta ao Brasil, Joana usaria como álibi a falta de calor, de sal, de sol, de cores tropicais que empalidecem, juraria, um negro do Alabama.

Abro a caixa de comentários para que você, caro leitor, dê o seu palpite sobre o enredo da história das mabaças. O final você decide!

quinta-feira, dezembro 28, 2006


Eu e o cinema


Foi paixão a, talvez, décima vista. Demorou e eu fui enfim laçada, arrebatada e vencida: o cinema inaugurou uma nova era na minha então tão breve vida. Eu tinha doze ou treze anos quando meu pai, sempre vanguardista e generoso no presentear, me deu o que na época era algo que eu não cogitava ter tão cedo: um aparelho de dvd. Fiquei estusiasmada mais pelo ar da novidade do que pelo deleite ou pelo acréscimo cultural que o aparelho poderia me proporcionar. Recebi o "bicho" em casa e marquei a inauguração com amigos, seria a exibição da primeira de uma série de tardes cinematográficas (lembrando bem, agora eu observo: há uns cinco ou seis anos, o dvd ainda era uma grande novidade. A mesma coisa foi com o celular, no início era uma aquisição complicadíssima, hoje qualquer cachorro de madame possui um com flip, viva voz e câmera).
Meu pai esqueceu de levar o controle remoto e, sem ele, não é possível selecionar legendas. Voltamos à pequena locadora para trocar o filme gringo por uma película brasileira, e na falta de opções, levamos o péssimo "Avassaladoras". Deprimente. Filme horrível, bobo, sem graça, chato pra se ver até na intenção de ver um filme chato.


A "segunda vez" do meu dvd disparou em qualidade. Aluguei, dessa vez sozinha, "Janela indiscreta", de Hitchcock e "Advogado do diabo". Fiquei atinada e a partir daí, cada troquinho que eu arrumasse teria como destino o caixa da pequenina locadora que, aos poucos, foi mostrando pra mim o tesouro que guardava. Neste ano de 2002 ou 2003 - talvez ambos, que péssima memória a minha - eu assisti mais filmes do que em toda a minha vida.

Ganhei também de meu pai nessa época o "imperdível, melhor filme de todos os tempos" (segundo ele), "Cidadão Kane". Fui com sede demais ao pote e vi menos do que esperava a minha mente ansiosa e mirabolante. Maravilhoso, claro, pude constatar anos mais tarde, com jeito e com calma.
Nesse lote vieram ainda outras pérolas. Também de Orson Welles, "A dama de xangai", com sua fabulosa cena dos espelhos e "F for Fake", que eu achei esquisitinho; o honorável "Chinatown" (vida longa a Jack Nicholson); "Atlantic City", me revelando a talentosa Susan Sarandon desde a mocidade; "Butch Cassidy", com os deuses Paul Newman e Redford; e por fim, o que já foi meu número 1 e que por muito tempo colorirá meu top 5 melhores filmes, o incomparável "A primeira noite de um homem".

["Hello darkness, my old friend... I've come to talk with you again", ciciado por Simon e Garfunkel, é o primeiro verso de "Sounds of silence" e me provoca calafrios até hoje.]

Comecei pelos clássicos modernos. De Laranja Mecânica e Calígula aos filmes doidos de David Lynch, eu estendi o apreço por uma obra à coleções, e assim conheci Chaplin, Hitchcock, Oliver Stone, Scorcese, Coppola, Altman, Tarantino, Bergman, Truffaut, Buñuel, Fellini, Godard e Kurosawa (rapidamente), Woody Allen, Billy Wilder, Polanski, até Glauber (eu era uma guria muito tirada) e outros tantos, com certeza. Fora os "filhos únicos" (não enumerados por preferência): "Corra, Lola, Corra", "Como água para chocolate", "Amarcord","Casablanca","O fabuloso destino de Amélie Poulain", "Irmãos cara de pau", "O incrível exército de Brancaleone", "Scarface", "Um dia de cão", por aí.



E pra vocês, me contem: como foi que o cinema, esse sujeito simpático, se apresentou?

domingo, dezembro 24, 2006


Papai Noel é Santa

A minha mais remota lembrança natalina me remete a uma infância tardia. Como até hoje faço, eu tentava forjar uma naturalidade de criança diante de situações do imaginário popular como a crença no papai Noel (que um pouco mais tarde culminou na teatral descrença: no meu íntimo eu tentei sentir a dor de descobrir esta farsa) e a chegada do "espírito natalino" (tomada por ele, eu cumprimentava até desconhecidos).

O natal em Almadina era um banquete. Tudo do bom, tudo gostoso, fartura de doces suculentos e salgados apetitosos, e o melhor: não tinha hora pra começar a comer! As crianças se empanturravam antes de o peru chegar. Sempre assim. Os presentes, sempre bons. A meninada solta pela praça na fresca noite de natal. A casa lotava de gente, e até certo tempo atrás, uma roda de músicos amadores se formava na sala (entre tios, primos e amigos) e tocava com pandeiro, violão, acordeom e marcação ritmos que nem me atrevo a enumerar.

Mas bizo morreu e a festa perdeu bastante a graça. Nos anos seguintes, os poucos que antecederam a morte de biza e o fim dos encontros almadinenses, eu percebia que se tentava em vão conservar o mesmo entusiasmo. Normal, mas é assim e não volta: termina-se um ciclo para se formarem outros, a vez da terceira geração em torno da segunda, tudo então em seu lugar, em seu tempo e em sua ordem. Mas, é pena, até se formarem novas raízes, demora bastante.

Agora, apesar de meu plano de vida se apresentar para mim, a cada vez, sob uma moldura mais familiar (tradicional, jamais!), não sei se quando chegar a minha vez de ser la nonna, a vovó anfitriã da saudosa família reunida, vou querer que seja assim. Fico pensando que não saberia lidar bem com uma situação dessa. Seria uma vovó neurótica, estressada, não ia querer criança mexendo em minhas coisas? Aliás, vovó?! Como assim? Proibirei todos os pentelhos de me chamarem assim.

(Ai meu Deus, é meio brincadeira, meio verdade.)

Pensei nesse título engraçadinho para entoar um texto mais bem humorado – pra quem não entendeu “papai Noel é Santa”, é porque ele se chama Santa Claus em inglês. Sempre achei muito gay! - e, aproveitando a ocasião, pensei em criticar a depravada indústria norte americana que lixivia mentes desde a primeira infância com seus símbolos sedutores e seus sentidos subliminares – a coincidência de cores nunca percebida entre as roupas do bom velhinho e a marca do líquido preto desentupidor de pias – enquadrando nessa jogada publicitária cheia de charme o que devia ser um original e sublime encontro familiar!! Que coisa!

Mas...

Acho que fui tomada pelo espírito natalino. Nada de reclamações por hoje. Boas festas, meus amores. Ho ho ho.

quinta-feira, dezembro 14, 2006

Observe:

“No Brasil de hoje, 20 milhões de meninos jogam futebol. Se apenas um em cada dez mil tiver talento e persistência, nas próximas copas teremos dois mil ótimos jogadores; se for um em cada um milhão, ainda assim teremos dois times completos, formados por grandes craques. O mesmo não vai acontecer com a ciência, a tecnologia e a literatura no Brasil. Não teremos 20 prêmios Nobel, nem mesmo juntando, a esses meninos, os outros 20 milhões de meninas. Porque poucos entrarão na escola aos quatro anos. Não terão acesso a verdadeiras escolas, não poderão persistir no desenvolvimento de talento, não terão livros ou computadores como têm bolas. O Brasil tem grandes craques graças ao gosto pelo futebol, ao tamanho da nossa população e ao fato de que todos têm acesso à bola e ao campo de pelada. [...] Os campos e as bolas surgem espontaneamente, ou pelo esforço da comunidade e dos próprios meninos. A escola e os computadores só estarão à disposição se houver um esforço deliberado do país inteiro. Ninguém vira craque por sorte, e sim por talento e persistência. Mas, no Brasil, o desenvolvimento intelectual depende, antes de tudo, da sorte de nascer em uma família rica, em uma cidade próspera, com um prefeito que dê prioridade à educação. O talento e a persistência vêm depois.”
Trechos de ‘Paixão Nacional’ - Cristóvam Buarque em O Globo (10/06/2006)


Recebi de duas amigas a seguinte mensagem, que parece estar circulando por toda a rede de e-mails do país:

"Campanha de boicote ao filme americano TURISTAS, distribuído pela Paris Filmes, que estréia nos EUA dia 10 de Dezembro e em Janeiro ou Fevereiro aqui no Brasil. Para quem não sabe, o filme conta a história de seis jovens americanos que vêm ao Brasil de férias. Chegando aqui eles tomam uma caipirinha com 'boa noite Cinderela', são assaltados, seqüestrados, torturados e por fim têm os órgãos roubados por traficantes da indústria clandestina de transplantes. São cenas fortes e tristes. E isso tudo citando o Brasil como cenário! Alguns morrem e mesmo os que sobrevivem não têm um final feliz. O filme é classificado como Terror, comparado ao filme 'O Albergue' e a EMBRATUR já está preocupada com a péssima repercussão do filme lá fora. Só pra se ter uma idéia, o trailer começa com a frase: 'Num país onde vale tudo, tudo pode acontecer!' Vamos fazer deste filme, pelo menos aqui no Brasil, um fracasso total de bilheteria. Por mais que tenhamos problemas aqui, não é justo atacarem nossa imagem de forma tão ofensiva. E repassem para o maior numero possível de pessoas que puderem!!!"


Pelo o amor de Deus, o que está acontecendo?!
Eu fico sem entender que tipo de fúria acarreta o nosso tão surrado orgulho nacional quando vemos uma coisa boba como essa. É como uma isca que mordemos feito peixinhos: lançam uma crítica assim para que a atenção se volte para temas pouco importantes. Me lembra a repercussão de um episódio de Os Simpsons que se passa no Brasil - divertidíssimo, por sinal. A trama: Ronaldo (olha o nome), um pobre chiquito da favela carioca, é filmado por uma emissora de TV americana e exibido em Springfield, direto na residência da famosa família. Lisa, comovida, convence a família de ir ao Rio de Janeiro procurar o garotinho.

Chegando ao Brasil, inicia-se um festival de exageros bem à linha do humor do desenho. Em quinze minutos a família é assaltada por bandidos mirins e em seguida por macacos; no hotel, os carregadores fazem malabarismo e embaixadinhas com as malas e arremessam-nas pelo saguão. Depois são seqüestrados por bandidos no bondinho. Em alguma parte eles comem em um restaurante onde garçons tentam lhes passar a perna e as garçonetes usam frutas na cabeça - todos, claro, falando em espanhol.
Para mim a questão se apresenta como mais um filme da coleção de obras fantasiosas espalhadas pelo mundo à la “café, Pelé, mulata e praia”. Existe um novo documentário feito por uma brasileira que entrevistou atores e diretores que trabalharam em filmes com esta linguagem estereotipada que trouxe descobertas interessantes. Ela perguntou a uma atriz se sabia que o idioma brasileiro é o português e não o espanhol falado no filme estrelado por ela há anos. Envergonhadíssima, a atriz pediu desculpas porque até então ignorava o assunto. À mesma pergunta, um diretor respondeu que sempre soube qual língua se fala no Brasil, mas explicou que a escolha do espanhol, no caso dele, foi por generalização. “É a língua da maioria dos países da América Latina”. Culpa do inocente marketing.


Meu diagnóstico para “Turistas” é o que eu chamo de um exemplar de exageros cinematográficos. São clássicos e necessários, compõem o cinema e não precisam corresponder à realidade. Cometemos o mesmo "erro" diariamente no que tange à culturas alheias da maneira mais estúpida: na vida real. Quantas pessoas pensam uma África inteira de negros pobres, primitivos, rusticamente enfeitados com seus artesanatos aldeões e... todos soropositivos, claro!?. Ou talvez um Oriente Médio de homens-bomba, de pobreza e opressão? A China, com seu bilhão imortalizado em filmes ora como mafiosos, ora como comerciantes palermas.
Fora o exemplo citado, o europeu Albergue que se passa na Eslováquia: um festival sanguinolento de violência em pleno oásis da civilidade. Ainda tem a crítica escancarada aos estúpidos personagens americanos do filme... Bem... Esquece este último que eu falei.
Paro pra ver então o que acontece na realidade brasileira. Minha mãe me diz que eu devo satisfações porque eu ainda não sou dona do meu nariz. Para me indignar, preciso antes pagar minhas próprias contas. O Brasil deve satisfações. Todo mundo está cansado de saber que crianças brasileiras se envolvem na criminalidade cada vez mais cedo. Que o turismo sexual é uma realidade não combatida - pelo contrário, é incentivada e propagada mundo afora. Que o Rio é uma arena romana aonde se assiste à banal e diária carnificina humana da janela ou no jornal nacional nosso de cada dia.
Então, reclamar do quê mesmo? A Embratur tem mais com o que se preocupar, acho que vou mandar uma cartinha pra eles.

quinta-feira, dezembro 07, 2006

INHOTIM

Demorei, eu sei, mas hei de ser perdoada: escrever sobre o que escreverei exigiu de mim um certo tempo de maturação... ou de desgustação! (ou ainda, de "ruminação")
O motivo do meu drama? A vontade de descrever o que eu vi por lá. Impossível, só conhecendo pra sentir. Convido vocês a ler um breve resumo do que eu vi e do que tecnicamente se prepõe o centro de arte contemporânea INHOTIM (espero já estar perdoada, então).

Estive com meu tio e primos no domingo dia 3, véspera da minha volta pra Salvador, em uma cidade chamada Brumadinho, a 60km de Belo Horizonte (cidade conhecida por muitos como a terra de Aleijadinho - descobri depois que ele nasceu em Ouro Preto), para o que eu imaginava ser uma morna, mas alegrinha visita turística - porque as crianças estavam animadas demais para uma repetida visita a um museu.

Chegamos, pagamos, entramos. O recepcionista alertou que duas galerias possuíam conteúdo "inadequado", que entrassem os adultos primeiro para decidir se as crianças poderiam ver (eu deixei! claro). Colei na pele meu adesivo de visitante porque não aderia à minha roupa, e seguimos para a primeira galeria, "Pro banheiro primeiro", disse minha prima e assim fomos todos lavar as mãos antes, um pretexto pra usar o banheiro mais lindo que eu já vi. Lindo, e agora pode-se excluir o romantismo da minha fala, era um banheiro majestoso com três pias de granito preto e mármore, de frente para espelhos redondos que intercalavam três palmeiras imperiais. E a saboneteira funcionava.

Saindo do banheiro, dei com uma estradinha de pedras sobre grama cortando um imenso jardim de plantas exóticas. O Inhotim é dedicado quase em sua totalidade ao cultivo de flora ornamental rara do Brasil e do mundo (cerca de 1.400 espécies!). São 1.200 ha de área com 35 de paisagens e 400 de mata nativa preservada. Três lindos lagos de 30.000m² de lâmina d'água compõem esse imenso jardim que é ainda o local de sobrevivência, alimentação e reprodução das mais variadas formas de vida (pavões, gansos, patos, marrecos, cisnes que eu não vi nem em conto de fadas - tinha um preto!).

O Inhotim abriga espressiva coleção permanente de arte contemporânea com aproximadamente 300 trabalhos produzidos entre a década de 1960 e os dias atuais. Artistas brasileiros e internacionais estão expostos através de pintura, escultura, fotografia, vídeo, instalações e outras cositas más (e haja cositas! grifa esse cositas aí!), fora as obras espalhadas pelo jardim. Eu visitei sete das nove galerias (duas estão em reforma, e parece que reformas são constantes, dado o tamanho das instalações e da relativamente curta permanência das obras).

A primeira galeria que visitei continha uma instalação sonora. Quarenta caixas de som posicionadas de modo com que o som convergisse para o centro, onde havia bancos para os visitantes sentarem. (Lembra a cena de "O clã das adagas voadoras", quando colocam a menina cega no meio dos tambores pra ela dizer de onde vinha o som). O som era uma gravação de pouco mais de 14 minutos e parecia uma ópera. Só havia vozes e de cada caixa saía uma única voz, em momentos distintos. Começou uma voz feminina ao fundo e meu primo de dez anos, pra mim: "foi você que falou?". Incrívelmente bonito.

A galeria Cildo Meireles (uma das duas permanentes) abriga uma bela instalação do autor, "Desvio para o vermelho". Tira-se os sapatos para entrar e eu juro que soltei um "ooooohh!!!" altão quando eu entrei. Pense num quarto onde todos os objetos são vermelhos! Tapete, sofá, mesa, vitrola, vinis, escrivaninha, televisão, lap top, bugigangas, armário (roupas dentro do armário e um sutiã lindo!), tudo! E tudo parte da coleção pessoal de Cildo, artista renomado internacionalmente que vive atualmente entre o Rio e NY. O rapaz que supervisiona falou que muita coisa ele ganhou de presente, e eu disse que ia dar alguma coisa vermelha bem lindona pra ele colocar lá (rs).

E quando eu achei que tinha visto tudo, minha prima me leva para uma entrada ao fundo onde uma mini garrafa deitada no chão simulava o vazamento de um líquido vermelho que tinge o piso e leva à uma outra sala absolutamente escura (tão escura que eu tive medo de andar sem segurar a mão dela). Um fino facho de luz iluminava um único ponto, uma pequena pia de cuja torneira saía continuamente um líquido. Vermelho.

As galerias e suas obras proporcionam ao visitante a interação com a arte e demostram fisicamente as várias conexões existentes entre espaços arquitetônicos e experiências individuais do corpo. Lá eu caminhei sobre placas de vidro quebrado, vi dois pelados encapuzados brigando, entrei num iglu onde se vê a água parar no ar, vi fotos chocantes e li coisas terríveis, entrei num Tuk Tuk (táxi tailandês) e assisti a parte de um filme de lá (a Tailândia é a maior produtora de cinema do mundo), deitei em uma rede enquanto ouvia "Purple Haze" e via Jimi Hendrix projetado nas paredes, ele, seus apetrechos lisérgicos e suas carreiras de cocaína sobre a capa do próprio disco e muito, muito mais.