Esperei muito pelo dia de hoje. Não com a agonia de quem risca as folhinhas do calendário, mas com igual intensidade e bastante imaginação.
Venho tentando assistir Despedida em Las Vegas há muito tempo. Parei de contar as vezes em que percorri locadoras em busca desse filme. Nas pequenas, nem rastro dele. Nas duas maiores da cidade, nada. Uma delas chegou a ter, em VHS, único exemplar, mas algum desalmado alugou e perdeu, estragou ou se deu de presente.
A primeira fagulha de vontade foi disparada por meu pai. “Você nunca assistiu a esse filme?!”, perguntava ele, forjando decepção – hoje entendo o propósito, para me preocupar, como se fosse um absurdo eu não ter assistido a algum filme aos 13 anos de idade.
A segunda foi durante a fala de um rapaz numa das muitas situações inesperadas que, quem me conhece sabe, só acontecem comigo.
Eu treinava judô há pouco tempo e a euforia dessa novidade ainda me fazia acordar cedo, me alimentar direito e treinar com o gás e a paixão de uma competidora.
Em visita a uma academia amiga, conheci um judoca viajante, vindo nem lembro mais de onde, que acabava de chegar a Salvador e não conhecia ninguém. Conversando depois do treino prometi, solícita, que o levaria à noite para comer num bom lugar.
A conversa no restaurante foi inofensiva, aos navegantes que imaginaram luz de velas e um bote do malandro lutador. Mas surgiu o papo sobre o amor e, diante da crueza de minhas declarações adolescentes, de quem nunca tinha vivido isso – ainda suponho que não vivi e na época sequer tinha tido um namorado -, ele perguntou se eu havia visto Despedida em Las Vegas.
- Meu pai já me falou desse filme.
- Menina, quando você assisti-lo, não vai precisar que mais ninguém tente te dizer o que é o amor.
Uau.
Agora o tenho nas mãos... Acabei de alugar e contei alegremente minha sina a todos com quem trombei na gigantesca megastore: “Você não sabe quanto tempo procurei por isto!”. Gosto de contar minhas historinhas e acho que eles gostaram de me ouvir.
terça-feira, setembro 11, 2007
domingo, agosto 12, 2007
Voltei a cantar
Parar de escrever em blog entrou pro rol das coisas que eu não posso parar de fazer. A menos que eu queira correr o risco de não voltar mais. É como malhar, estudar ou usar creme pro rosto. Você sabe que é preciso ter disciplina, então se organiza - no caso do creme compra os potinhos, um para o dia, outro pra antes de dormir - e pensa "Que fácil é ficar bonita!".
Entusiasmada, no primeiro dia você lava o rosto, toda minúcia, aplica o creme e sente a parada fazer efeito - rejuvenescendo mesmo! Ainda mais no meu caso: aos 19 adquiri uma poção anti-idade para as de 25. A revendedora avon, por sinal minha ex sogra, disse que não faria mal. Às vezes sinto um formigamento, de vez em quando é como se a pele estivesse em chamas, mas acho que é normal.
Então uma noite, depois de misturar cerveja alemã com cachaça seleta, você chega em casa inutilizada, acabada, jogada na valeta. Passa pelo banheiro sem mirar o espelho, despeja o xixi reprimido das moçoilas casadoiras que não se corrompem por qualquer banheiro da night e segue maquinalmente pra cama.
Sim, você dorme de maquiagem - aqueles quilos de pó e tinta preta se mesclando noite adentro numa alquimia goguenta - e acorda ao meio dia com gosto de cabo de guarda-chuva na boca, lembrando com pesar dos devaneios da noite e de que, "droga, já é domingo". O céu de Salvador, lindo como nunca dantes, te inspira um lamento pelo dia de praia perdido (mais um) - é a sua pele de jambo-girl também se esvaindo, amiga... outro suspiro.
Você confere a tela surrealista que o pincel de seus cílios estampou no travesseiro - era uma vez aquela fronha linda de cambraia de linho - e finalmente desbrava o banheiro, cheia de medo, coração aflito, mas pronta pra mirar a cara com coragem. Coragem, coragem.
Aquela semana de devoção e disciplina não passaram no primeiro teste prático, o da resistência física. Então adeus rotina cretina de cremes, adeus rejuvenescimento.
Com blog é menos drástico, mas igualmente devastador e de difícil recuperação. Vocês estão diantes de um esforço superior, meus caros. E quem viver verá quanto tempo durará!
domingo, junho 24, 2007
Do mérito das primeiras impressões
Toda vez acerto na mosca, mas nunca aprendo. O pré-conceito do meu olhar é imbatível e assim mesmo eu dou ouvidos a um anjo que me sopra toda vez: "calminha, nesse diagnóstico". Me basta um olho-no-olho de segundos pra capturar os segredos de alcova do objeto mirado. Eu olho os olhos de alguém e percebo do que se trata aquele ninho de intenções. Claro que isso de maneira precária, subjetiva, se viesse tudo traduzidinho, meu nome era Cigana Padilha e hoje eu estava lendo o fado tropical dos viajantes na rodoviária - o que não seria tão mal, ao menos tiraria uns trocadinhos, melhor lucro do que desta vidinha de blogueira pobre.
Elocubro, rapidamente, este pensamento depois de matutar a última decepção sofrida, fim se semana passado, São João. Culpa dessa costumeira falta de atenção à minha infalível mirada. Eu já sabia que se tratava de uma cretina, aquele ar de histeria contida não me enganava, mas o anjinho apaziguador me guardava, sentado em meu ombro, dizendo baixinho "teiquirise, Juanita". Foi na mosca: a maledita descascou injúrias gratuitas a minha doce pessoa. Aguentei firme e revidei altiva, bebi a parte de licor de jenipapo que me cabia e fui pular outra fogueira!
Elocubro, rapidamente, este pensamento depois de matutar a última decepção sofrida, fim se semana passado, São João. Culpa dessa costumeira falta de atenção à minha infalível mirada. Eu já sabia que se tratava de uma cretina, aquele ar de histeria contida não me enganava, mas o anjinho apaziguador me guardava, sentado em meu ombro, dizendo baixinho "teiquirise, Juanita". Foi na mosca: a maledita descascou injúrias gratuitas a minha doce pessoa. Aguentei firme e revidei altiva, bebi a parte de licor de jenipapo que me cabia e fui pular outra fogueira!
sexta-feira, junho 08, 2007
Pesadelo chique

Quando ouço “Monalisa”, canção de Jay Livingston e Ray Evans eternizada por Nat King Cole, lembro de minha irmã gêmea. A música fala de uma moça que é tão misteriosa quanto a do sorriso famoso. Sei que minha irmã não entende – as musas nunca entendem bem –, mas mesmo assim, de vez em quando eu canto para ela essa canção com meu inglês ruim e trocando “lisa” por Lígia – “Mona Lígia, Mona Lígia, man have named you…”.
Dias atrás, coloquei um disco de Nat para ouvir no banho, e quando tocou Monalisa, eu fiquei prestando bem atenção à letra. Nessa mesma noite eu li “O Pesadelo”, uma das sete conferências dadas por Jorge Luis Borges e transcritas em seguida para o imperdível livro “As Sete Noites”.
Não se trata de histórias de terror em si, mas de algumas acepções do tema. Em certa altura, Borges descreve o realismo que se configura nos pesadelos e o fato de que um pesadelo pode ser assustador mostrando qualquer imagem. Então, ele exemplifica com dois recorrentes pesadelos seus: no primeiro aparecem máscaras e espelhos; no segundo, um labirinto. Ambos podem parecer menos assustadores se comparados, na vigília, com uma imagem mais representativa do medo, como a do inferno. Mas se compararmos a idéia que fazemos do inferno, acordados, com a sensação real do horror que sentimos durante um pesadelo, o inferno não passa de uma simples câmara de tortura.
Tal mistura de impressões não poderia terminar de outra maneira: ainda nesta noite, eu tive um pesadelo com Nat King Cole!
Não sei onde eu estava, acho que chovia. Havia um policial que me acompanhava na investigação de um assassinato. O clímax do meu terror era eu dar com a morta ensangüentada. Eu era uma peça importante porque conseguia decifrar as entrelinhas do que dizia a letra de uma canção - Monalisa, que no sonho era de autoria de Nat King Cole -, a principal pista do crime. Descubro no fim que ele assassinara a musa inspiradora, uma mulher por quem era apaixonado.
Lembro de ler a letra no sonho e, pensando comigo, matar a charada: “Só um homem tão apaixonado seria capaz de matar a mulher!”. É uma loucura, mas no meu sonho pareceu perfeitamente verossímil...
Quem manda ler textos sobre pesadelo antes de dormir?!
Porque um cavalo? - Na verdade é uma égua. Ainda em "O Pesadelo", Borges expõe sua maravilhosa pesquisa sobre a etimologia de pesadelo em diversos idiomas. Em vários, a exemplo do latino incubus e do grego efialtes, as palavras são nomes de demônios que inspiram o pesadelo. Em espanhol, é parecida com português, pesadilla. Porém é a língua inglesa que possui o vocábulo mais sábio e mais misterioso, nightmare, que Borges, apoiado nos versos de Shakespeare, acredita descender de night mare: égua da noite. Nos versos de Shakespeare: "I met the night mare", "encontrei a égua da noite", ou ainda: "the nightmare and her nine foals", "o pesadelo e seus nove potros", em que ele vê o pesadelo como sinônimo de égua.
E porque se fosse cavalo, eu botava o desenho em azul.
sexta-feira, junho 01, 2007
Uma cilada para a analista
baseado em fatos reaiss
O homem chegou no escritório da analista quando faltavam cinco minutos para a consulta começar. Sentou-se, ofegante, e sem saber o que fazer com aquele tempo, puxou uma das revistas para o joelho e começou a folheá-la sem muito interesse. Havia apenas ele e a recepcionista na sala de espera. Lembrou-se de ter lido que pacientes de analista evitam permanecer muito tempo nos consultórios para que ninguém os flagre. Chegam quase em cima da hora e partem imediatamente depois que a sessão termina.
Sem querer, os olhares dos dois cruzavam a toda hora, e isso começou a incomodar muito o homem. Tinha alguma coisa na moça que não o agradava. Achava o seu olhar insolente. Em seis anos de análise, ele nunca sentiu vontade de trocar palavras que não fossem referentes à sua condição de paciente e à dela de recepcionista.
Mudou de lugar, expirando sonoramente como quem esvazia de uma só vez o pulmão inteiro, de modo a fazê-la perceber o seu incômodo. Sentou-se dando-lhe as costas.
De repente, ela rompe o silêncio para dar um aviso: a Dra. Rosa estava presa num engarrafamento e poderia se atrasar. Surpreendido, ele fez que entendeu, balançando a cabeça rapidamente, mas depois, recompondo-se, morreu de raiva por ela ter falado com cortesia. Não queria cortesias daquela insolente; na verdade queria ter ouvido uma grosseria e ter um motivo para destratá-la de volta, dizer-lhe algo. Fazê-la perder o emprego.
Começara a suar e a balançar as pernas. Suava e balançava as pernas quando ficava nervoso e sabia que a recepcionista conhecia esses sintomas, que anunciavam as crises de outrora. Ele podia jurar que, naquele instante, havia um sorriso de ironia na cara da moça, como se ela julgasse patética a sua agonia. Ele há muito tempo não ficava tão nervoso assim.
Estupefato, ele irrompeu com o dedo levantado e foi em direção ao balcão, gritando:
- Olhe, eu me cansei da sua cara me olhando desse jeito!
- Senhor... por favor, acalme-se! – respondeu, paralisada.
- Acalme-se uma ova. Eu percebo quando você me olha com essa sua cara sonsa. Acha que eu não sei o que você está pensando? Você deve contar a todos, às risadas, que trabalha num lugar onde um paciente maluco aparece de vez em quando para dar suas crises.
Ela já estava interfonando para a segurança quando Dra. Rosa entrou na sala. Devia ter mais de setenta, mas era jovial e tinha a aparência muito saudável; usava um tailleur de linho cinza escuro listrado de preto, os cabelos presos num coque impecável e um par de brincos de pérola. Olhou para aquele homem que berrava e transpirava como um porco que se sabe prestes ao sacrifício e ordenou-lhe, em tom baixo:
- Sr. Aderbal, queira por gentileza dirigir-se à minha sala.
Dentro dela, a doutora fez o nervoso paciente deitar-se no divã. Àquela altura, Aderbal estava com os parafusos da cabeça qual peças perdidas dentro de uma gaveta de ferramentas. De repente, não sabia onde estava; olhava para a doutora e perguntava o que fazia ali. Sequer lembrava-se de seu imbróglio com a recepcionista, minutos atrás. Parou de falar e ficou com a vista imóvel, como se percebesse algo além das janelas da sala. Então sentenciou:
- Gostaria de ir embora. A senhora poderia discar para o piloto do meu helicóptero?
- Que helicóptero, Sr. Aderbal? – respondeu ela, indiferente - acostumada -, enquanto preparava uma injeção tranqüilizante.
- O MEU helicóptero! Eu só saio daqui nele.
“Mais essa agora”, pensou a doutora. Não havia helicóptero algum. Ela tentou aplicar-lhe a injeção, mas o homem reagia mal. Delirava: "Você quer me dar um sonífero para depois roubar o meu helicóptero!". Não queria saber de outra coisa. Enquanto ele bradava pelo paradeiro do veículo, Dra. Rosa pensava no expediente, que terminara duas horas atrás.
Cansada, de súbito, a doutora resolve abandonar seus métodos e declara com o tom sereno de sempre:
- O trânsito de helicópteros hoje está um inferno. São seis da tarde e está o maior congestionamento sobre esses prédios... Ou você acha que é o único que tem helicóptero? Dessa vez você terá que ir pra casa de carro. Quer uma carona?
O pólo sobressaltado, o alter ego da personalidade em crise pôs-se imediatamente em seu lugar, desarmado de argumentos. O moço ficou tão calmo que deu até para aplicar a injeção.
Nada como uma eventual volta à velha psicologia, aquela politicamente incorreta mas que funciona sempre!
O homem chegou no escritório da analista quando faltavam cinco minutos para a consulta começar. Sentou-se, ofegante, e sem saber o que fazer com aquele tempo, puxou uma das revistas para o joelho e começou a folheá-la sem muito interesse. Havia apenas ele e a recepcionista na sala de espera. Lembrou-se de ter lido que pacientes de analista evitam permanecer muito tempo nos consultórios para que ninguém os flagre. Chegam quase em cima da hora e partem imediatamente depois que a sessão termina.
Sem querer, os olhares dos dois cruzavam a toda hora, e isso começou a incomodar muito o homem. Tinha alguma coisa na moça que não o agradava. Achava o seu olhar insolente. Em seis anos de análise, ele nunca sentiu vontade de trocar palavras que não fossem referentes à sua condição de paciente e à dela de recepcionista.
Mudou de lugar, expirando sonoramente como quem esvazia de uma só vez o pulmão inteiro, de modo a fazê-la perceber o seu incômodo. Sentou-se dando-lhe as costas.
De repente, ela rompe o silêncio para dar um aviso: a Dra. Rosa estava presa num engarrafamento e poderia se atrasar. Surpreendido, ele fez que entendeu, balançando a cabeça rapidamente, mas depois, recompondo-se, morreu de raiva por ela ter falado com cortesia. Não queria cortesias daquela insolente; na verdade queria ter ouvido uma grosseria e ter um motivo para destratá-la de volta, dizer-lhe algo. Fazê-la perder o emprego.
Começara a suar e a balançar as pernas. Suava e balançava as pernas quando ficava nervoso e sabia que a recepcionista conhecia esses sintomas, que anunciavam as crises de outrora. Ele podia jurar que, naquele instante, havia um sorriso de ironia na cara da moça, como se ela julgasse patética a sua agonia. Ele há muito tempo não ficava tão nervoso assim.
Estupefato, ele irrompeu com o dedo levantado e foi em direção ao balcão, gritando:
- Olhe, eu me cansei da sua cara me olhando desse jeito!
- Senhor... por favor, acalme-se! – respondeu, paralisada.
- Acalme-se uma ova. Eu percebo quando você me olha com essa sua cara sonsa. Acha que eu não sei o que você está pensando? Você deve contar a todos, às risadas, que trabalha num lugar onde um paciente maluco aparece de vez em quando para dar suas crises.
Ela já estava interfonando para a segurança quando Dra. Rosa entrou na sala. Devia ter mais de setenta, mas era jovial e tinha a aparência muito saudável; usava um tailleur de linho cinza escuro listrado de preto, os cabelos presos num coque impecável e um par de brincos de pérola. Olhou para aquele homem que berrava e transpirava como um porco que se sabe prestes ao sacrifício e ordenou-lhe, em tom baixo:
- Sr. Aderbal, queira por gentileza dirigir-se à minha sala.
Dentro dela, a doutora fez o nervoso paciente deitar-se no divã. Àquela altura, Aderbal estava com os parafusos da cabeça qual peças perdidas dentro de uma gaveta de ferramentas. De repente, não sabia onde estava; olhava para a doutora e perguntava o que fazia ali. Sequer lembrava-se de seu imbróglio com a recepcionista, minutos atrás. Parou de falar e ficou com a vista imóvel, como se percebesse algo além das janelas da sala. Então sentenciou:
- Gostaria de ir embora. A senhora poderia discar para o piloto do meu helicóptero?
- Que helicóptero, Sr. Aderbal? – respondeu ela, indiferente - acostumada -, enquanto preparava uma injeção tranqüilizante.
- O MEU helicóptero! Eu só saio daqui nele.
“Mais essa agora”, pensou a doutora. Não havia helicóptero algum. Ela tentou aplicar-lhe a injeção, mas o homem reagia mal. Delirava: "Você quer me dar um sonífero para depois roubar o meu helicóptero!". Não queria saber de outra coisa. Enquanto ele bradava pelo paradeiro do veículo, Dra. Rosa pensava no expediente, que terminara duas horas atrás.
Cansada, de súbito, a doutora resolve abandonar seus métodos e declara com o tom sereno de sempre:
- O trânsito de helicópteros hoje está um inferno. São seis da tarde e está o maior congestionamento sobre esses prédios... Ou você acha que é o único que tem helicóptero? Dessa vez você terá que ir pra casa de carro. Quer uma carona?
O pólo sobressaltado, o alter ego da personalidade em crise pôs-se imediatamente em seu lugar, desarmado de argumentos. O moço ficou tão calmo que deu até para aplicar a injeção.
Nada como uma eventual volta à velha psicologia, aquela politicamente incorreta mas que funciona sempre!
quarta-feira, maio 23, 2007

O Gorgulho
Certa vez, quando revirava tranqueiras esquecidas nalgum canto de minha casa, deparei com uma montanha de revistinhas de uma antiga coleção de minha mãe, talvez as sobras da livraria do tempo de meus pais casados. Meio ao acaso, peguei uma Chiclete com Banana, velha revista de quadrinhos e textos feita pelo Angeli e outras feras. Naquela edição eu encontrei um pequenino texto que marcou a minha vida. A revista se perdeu entre as arrumações e empréstimos que vivo fazendo, mas alguns trechinhos da história carimbaram para sempre a massa acinzentada desta que vos escreve.
A trama é simples: trata-se de um gorgulho (aquele bichinho que dá em sacos de macarrão guardados por muito tempo) cansado da monotonia vegetariana e da vidinha mansa entre sacos de cereais. Um dia, esse "penseroso coleóptero" decide expandir seu horizonte gastronômico. Ouvira falar do sangue, iguaria rara de muitas propriedades nutritivas e tentara imaginar que sabor teria. Pensava, curioso, na maravilha suculenta de um jorro rubro a lhe inundar o paladar... Hummm! Solitário e dotado de notável esperteza, o Gorgulho parte para espetar o próprio abdome com o seu bico-lança, provando do seu sanguinho e tornando-se assim um gorgulho auto-suficiente! Não é genial?
Meu achado deve estar fazendo seu terceiro aniversário. E desde que aprendi a usar a internet que venho tentando, através do oráculo Google e de outros tantos, entre combinações impossíveis e vãs palavras-chave, encontrar algo que me leve de volta àquela linda historinha, tão curtinha e tão memorável. Mas até agora nada encontrei.
Semana passada eu li o Livro de Versos de Rubem Braga (Edições Pirata do Recife), uma grande leitura. O prefácio, feito por um amigo seu cuja alcunha agora me foge, comenta uma crônica em que o escritor relata ter gravado, sem mais nem porquê, alguns versos do colombiano Aurélio Arturo: "Trabajar era bueno en el sur, cortar los árboles, hacer canoas de los troncos". Braga lembrava disso em várias ocasiões de sua vida; de repente, ao fazer algo, os versos lhe ocorriam. Versos compostos por palavras simplórias e cotidianas, mas que o tocavam profundamente. Ele arremata o texto tentando decifrar o indecifrável, que seria onde se esconde o mistério da poesia.
No prefácio, seu amigo completa com uma informação surpreendente: um dia, em viagem à Colômbia, Braga ganha de presente de amigos poetas uma antologia de Arturo. Imediatamente ele se lembra e começa a recitar aqueles versos: “Trabajar era bueno...” e os amigos, ao ouvir, recitam junto com ele, em coro. O mesmo poema de palavras simples havia marcado a vida de várias pessoas.
Claro que ao ler isto eu lembrei da história do meu gorgulhinho. Será que outro que leu também lembra dele? Como com Braga, um texto simples me marcou por algum motivo que não sei bem qual, talvez pelo humor, não sei. Pena eu não me lembrar sequer o nome do autor.
Há duas semanas, fiz um poema que fala de um tamanduá que resolve virar vegetariano, bem o oposto do meu sanguinolento coleóptero, e há um mês, mais ou menos, tentei escrever também uma continuação pro Gorgulho, ele em nova peripécia, dessa vez arranjando um amigo gondoleiro que transporta sacos de mantimentos nos porões de uma embarcação pelos canais de Veneza – finérrimo! Pensei em sacos de pistache. Será que gorgulho come pistache?
terça-feira, maio 15, 2007
De novo, no ônibus
Outra ventania de lascar e meu vestido esvoaçava em sintonia com os vácuos de arrancada de buzu, assobios e sopradas. Com apenas uma mão livre, eu tentava conter os panos num gesto que não impediu minha bunda de estampar a avenida manolo days algumas várias vezes. Torci pra ser o do meu ônibus o barulho de motor que dobrava a esquina, e era.
Entrei, sentei e senti um abafamento. As pessoas tinham medo do vento e lacravam as janelas, mas eu tava agitada com a peleja contra o vento e morta de calor. Vagou um lugar à janela e eu fui me sentar nele. Abri-a um pouquinho...
Começou a romaria, pensei, quando vi o primeiro vendedor ambulante subir pela frente (na verdade foi o segundo, tinha um vendedor de picolé que estava trocando um dinheiro com o cobrador na hora que eu passei na borboleta).
Borboleta, às vezes sai um nome lindo desse pra uma coisa chata dessa.
O sujeitinho, um garoto bochechudo e de voz boa, me fez fechar o livro e prestar atenção no que dizia.
Falava eloqüente, com apelos rebuscados, cheio de vivência; parecia um velho no corpo de um moleque, fora do tom como uma voz de menina em um barbudão. Pedia pra gente ajudar ele com algum ($) dizendo: "É da natureza humana a solidariedade".
Quase comprei, mas eram amendoins e eu queria chocolate.
O terceiro vendedor entrou no ônibus na metade do meu caminho.
Vendia drops, balas molengas, balas geladas, confeitos, jujuba e chocolate. Fiz sinal com a sobrancelha e quando ele se emparelhou à minha fila, perguntei:
- Quanto é o chokito?
- Um e trinta.
- Hum... - soltei, pensando em interromper a operação cata-moedinhas.
- Eu faço por um real.
- Tá certo, quero um.
Ora, chokito é um real. Há um tempão! Droga de inflação... Mas depois eu fiquei pensando... que pra mim não custava, que pra ele devia fazer diferença.
E segui pra faculdade, pensando nessas besteiras como pequenos crimes que eu sempre cometo.
Outra ventania de lascar e meu vestido esvoaçava em sintonia com os vácuos de arrancada de buzu, assobios e sopradas. Com apenas uma mão livre, eu tentava conter os panos num gesto que não impediu minha bunda de estampar a avenida manolo days algumas várias vezes. Torci pra ser o do meu ônibus o barulho de motor que dobrava a esquina, e era.
Entrei, sentei e senti um abafamento. As pessoas tinham medo do vento e lacravam as janelas, mas eu tava agitada com a peleja contra o vento e morta de calor. Vagou um lugar à janela e eu fui me sentar nele. Abri-a um pouquinho...
Começou a romaria, pensei, quando vi o primeiro vendedor ambulante subir pela frente (na verdade foi o segundo, tinha um vendedor de picolé que estava trocando um dinheiro com o cobrador na hora que eu passei na borboleta).
Borboleta, às vezes sai um nome lindo desse pra uma coisa chata dessa.
O sujeitinho, um garoto bochechudo e de voz boa, me fez fechar o livro e prestar atenção no que dizia.
Falava eloqüente, com apelos rebuscados, cheio de vivência; parecia um velho no corpo de um moleque, fora do tom como uma voz de menina em um barbudão. Pedia pra gente ajudar ele com algum ($) dizendo: "É da natureza humana a solidariedade".
Quase comprei, mas eram amendoins e eu queria chocolate.
O terceiro vendedor entrou no ônibus na metade do meu caminho.
Vendia drops, balas molengas, balas geladas, confeitos, jujuba e chocolate. Fiz sinal com a sobrancelha e quando ele se emparelhou à minha fila, perguntei:
- Quanto é o chokito?
- Um e trinta.
- Hum... - soltei, pensando em interromper a operação cata-moedinhas.
- Eu faço por um real.
- Tá certo, quero um.
Ora, chokito é um real. Há um tempão! Droga de inflação... Mas depois eu fiquei pensando... que pra mim não custava, que pra ele devia fazer diferença.
E segui pra faculdade, pensando nessas besteiras como pequenos crimes que eu sempre cometo.
segunda-feira, maio 07, 2007

A nova lenda de Tristão
Tristão era o último homem da civilização Momocata, mas não sabia disso até retornar à sua terra e encontrá-la devastada.
Distante, passou cinco anos bem vividos - teve que recorrer à memória para se consolar. Escreveu um livro. Construiu um barco e nele navegou o estreito de Gibraltar. Curou o melhor rum do universo, com canas frescas que cultivou e triturou no próprio quintal, quando aprendiz de um cigano do Caribe. Fez suas vezes de médico em visita a uma vila brasileira, remediando cólicas menstruais de pré-adolescentes em flor com chá de papel crepom e açúcar.
Matou um homem sem motivo.
Bem, foram muitas coisas que Tristão fez nesses anos e nem todas elas são relatáveis ou louváveis.
Mas fez uma coisa de que se lembra todo santo dia quando acorda e quando se deita, quando come, bebe ou toma banho. A lembrança apenas tange o pensamento, porque o entristece, e como agregada à rotina, ele pensa nela ao fazer determinadas atividades. Quando relaxa e permite à lembrança inundar sua mente, é certo de que chora, mas não faz isso sempre.
A lembrança de que falo é o encontro com uma moça por quem Tristão se apaixonou perdida e imediatamente.
Eles tinham ambos vinte e dois anos e estavam no bar, naquela noite, por motivos parecidos. Ela tinha tédio e ele não tinha dinheiro. Pediram a mesma bebida e se notaram de longe.
Difícil explicar como tudo aconteceu, mas digo que foi rápido e recíproco. Os dois se apaixonaram um pelo outro, completamente, numa dessas noites de que nada se espera a não ser o consolo de um drink quente.
Depois de muitas doses, de muitos beijos, de muitos olhares e de muitas melhores-conversas-da-minha-vida, o destino daquele amor festivo foi a casa operária da bela, um pequeníssimo apartamento de um imenso conjunto habitacional daquela industrial cidade.
Ninguém, nem mesmo a chuva tinha mãos, pés, ventre, cotovelos, nuca tão finos quanto aquela mulher. E nunca nenhum homem foi tão desenvolto com uma dama como Tristão naquela noite, curta como um segundo, que durou até o dia alaranjado se assanhar.
“Tudo o que eu sei termina aqui”, soprava o coração apaixonado de Tristão ao mirar o belo corpo da amada adormecido na cama.
Tristão levantou-se, decidido a buscar numa venda qualquer, próxima, os itens para o melhor café da manhã da vida de sua amada. Sacodiu os bolsos e contou o seu escasso dinheiro.
Disparou a andar, passando pela imensidão de prédios de igual tamanho, igualmente pintados e dispostos em ruas iguais. Livrou-se do labirinto que desembocava numa rua diversa, cheio de lugares em que se vendiam frutas tenras e cheirosas, pão fresquinho e leite de cabra.
Encheu os braços de sacolas e com saudade do seu ninho, andou depressa pelo labirinto. Mas todos eram prédios iguais e tão iguais eram as ruas. Sem norte, andou e depois correu o quanto pôde, voltando à rua diversa diversas vezes, tentando em vão refazer o caminho. Tocou, errando, a campainha de centenas de apartamentos.
Tristão não sabia mais onde era a casa da moça.
Ele largou as sacolas, sentou na calçada e chorou uma poça de lágrimas. Chutou as sacolas, pisou nas frutas, gritou e enfim desfaleceu de fadiga.
Nunca mais encontrou sua Isolda.
sexta-feira, maio 04, 2007

Hai kai Balão
Ia dizer que fiz meus primeiros hai kais essa semana, mas na verdade eu "consegui" fazê-los. Já tinha tentado, e como! Foi um rompante de inspiração que me orgulhou muito e aconteceu no meio da aula - de uma boa aula, diga-se -, enquanto olhava pra meus coleguinhas. Ouso atribuir meu intento - aviso sem modéstia que não esperem grande coisa - ao momento mais poético da minha vida literária; tenho lido mais poesia nos ultimos dias do que feito qualquer outra coisa.
Achei que devia explicar o que é hai kai depois que um grande poeta amigo meu me disse que ainda não conhecia.
Hai kai é um estilo japonês de fazer poesia. Entre um monte de definições, passando por modas de estilo e influências de lugares e do tempo, acho que uma característica se conserva intacta: a concisão. Como os exercícios do número de toques (caracteres) de um título de jornal, é uma arte de dizer o máximo com o mínimo.
Um hai kai fotografa um instante, uma observação, encerra um pensamento.
Surgiu no Japão, século XVI, e versões brasileiras só apareceram no século XX. De lá pra cá ele viveu momentos diversos: ganhou rima, perdeu rima, ganhou título, perdeu título, movimentou polêmicas acerca de sua forma e dividiu correntes.
Uma delas sustenta a tradição oriental que define um haikai de três versos, linguagem simples, sem rima, com dezessete sílabas poéticas (cinco/sete/cinco) e com uma referência à natureza expressa por uma palavra (o kigô), que deve indicar também a estação do ano.
Outra corrente brasileira, talvez a mais famosa, não valoriza tanto a métrica nem o kigô, mas a completude e a rima – e a última não é regra. São os hai kais de poetas como Paulo Leminski, Millôr, Alice Ruiz e Helena Kolody, que inventaram de tudo o que se pode imaginar.
Aí vão os meus e, de quebra, outras coisinhas que saíram junto:
lua cheia em escorpião
causa rompante de rima
ou tenho poesia no coração?
*
olho o menino que ri
da colega que borda
com bola o pingo do i
*
Ísis, menina brejeira
a alma dá volta no mundo
o corpo aguarda na cadeira
*
Adônis dando aula
é menino de estilingue
estilhaçando janelas da alma
*
Octaviano é meu amigo
mais do que cabra do bem
enxerga além do umbigo
*
o cabelo de Marcela
inteira meu mundo
feito só de coisas belas
*
pra que tanta fala
tanto texto maldito
tanta besteira que cala
o importante a ser dito
faz-se silêncio na sala
pra escutar velho mito
um professor que é mala
e acha que fala bonito
*
mãe sábia responde
ao rebento curioso
"cachorro só não se come
porque a gente tem nojo"
E essa, feita pra minha irmã que é linda (como todas as outras e como eu também, claro, mas feita pra ela, Lígia, que além de tudo fotografa muito bem):
Eu não me canso de te olhar.
Vivo há vinte verões do seu lado, juntinho, colado
Mas parece que a cada minuto o seu rosto ganha novas linhas
E não são os vincos da vida, você ainda é novinha
São sulcos que os anjos de dedinhos finos esculpem
Quando passam de levinho no seu rosto e soltam
As linhas que só duram o tempo de eu notar e admirar
Eu não me canso mesmo de te olhar.
*
quinta-feira, abril 26, 2007

Dia de festa,
uma grade por minha conta!
O La vie en close foi premiado com o Thinking Blogger Awards!
Quem me colocou na roda foi a Anäis, que mantém um blog encantador - registre-se aqui a primeira menção honrosa. A proposta é o blogueiro enumerar cinco blogs que o "façam pensar". É muito difícil escolher só cinco depois que se conhece tantos blogs tão bons, mas aí vão, em ordem alfabética (por falta de outra), cinco amostras da maravilha que andei descobrindo:
Alessandra Alves: A Alessandra é a minha madrinha de blog, foi através dela que descobri a boa literatura que também alimenta a rede, que comentar um texto inaugura a possibilidade de trocas imediatas de idéias, iguala escritores e leitores a usuários que interagem e multiplicam discussões e conhecimentos... isso é legal demais! Sigo ainda guiada por ela.
Caralha Quatro: Quatro amigos se juntam para expôr artes curtinhas e textos muito interessantes. Nesse eu sou viciada: acesso diarimente para checar as charges de Marcelo sobre o universo soteropolitano; as lindas fotos de Thiago e também as de Ricardo, que fala agora direto de Buenos Aires; os textos, às vezes pescados de blogs alheios, mas tão interessantes quanto os seus próprios, de Irene, e o que vier.
carapuceiro: Foi através da Fugu (próxima da lista) que conheci o Xicoooo (é a ênfaseeee). Xico Sá é um mal diagramado com alma de bom menino. Muito do que escreve é auto biográfico, bem humorado e sentimental, suas crônicas são cheias de referências apaixonadas do que viu, do que leu e das mulheres que conheceu. Tem um monte de livros publicados e uma editora, do Bispo. Recentemente atravessamos a virtualidade, quando ele aportou em Salvador e tomamos umas, ôôô encontro que urge por repeteco. Sou fã mesmo!
Fruit de la passion: Procurando "tratamento científico" para uma questão que pegava fogo aqui na redação, recorri ao oráculo google, digitando palavras-chave que me levaram a um pequenino blog onde havia, entre muitos links, o lindo nome "Fruit de la passion". Que suave! Cliquei e me deparei com um desbunde literário, a coisa mais delicada do universo, textos de uma mulher madura que, sob o singelo pseudônimo de Fugu F (sendo Fugu M seu par) escreve sobre erótica feminina e gastronomia, como ela mesma define. Confira!
Hotel Hell: O que sei sobre o Joca Reiners Terron é muito pouco, me sopra agora um amigo que ele vive de traduções e faz design. Só sei que ele escreve muito! Em seu blog, ele publica, entre textos de outros autores, poemas e textos de sua autoria - entre tantos destaco um, o relato maravilhoso da trombada com um poeta de quem é fã. Vale muitíssimo a pena conferir.
Quem quiser indicar outro blog bom que conhece ou propagar o seu próprio, eis aqui uma caixa de comentários doida pra se ver cheia de links - como se as outras caixas aqui abertas não estivessem dispostas pro mesmo!
terça-feira, abril 24, 2007

Dor de cabeça é um troço lancinante que acaba com a paixão pela vida de qualquer mortal, daí eu hoje começar a pensar na relatividade das vontades: como se relacionam com o humor da gente!
Em uma noite fértil, de insônia proveitosa, posso ficar de virote pela madrugada a inventar tabelas, revolucionar meus horários, colocar tudo no papel, planejar minhas viagens, minhas finanças, ansiar pelo dia novo que já raia com a melhor das expectativas.
Mas basta um segundo de descuido para que Morfeu, o deus grego dos sonhos, me agarre, esculpa em mim a maior cara de sono e me confira o pior desejo de cama quando não me resta nem quinze minutos mais.
Bueno, daí é só me preparar: tomar um café forte, jogar água gelada no rosto, inventar arte pra não me escorar pelos cantos e esperar pelo fim do dia, maldizendo a hora em que fiz planos nada sólidos que se desmancham com meus humores!
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