
Os saudáveis, os puristas e o núcleo familiar leitor que me perdoem mas vou fazer uma apologia politicamente incorretíssima: o assunto de hoje é o cigarro e o discreto charme de se fumar. Não que eu ande fumando, pai, mãe (juro!), nem treinando. É que acho bonito e - pra contrariar o insuportável bombardeio anti-tabaco que entope meu juízo com imagens de bebês em potes, pernas gangrenadas e ratos mortos - acho até, de certo modo, inofensivo.
É claro que pessoas não fumantes como eu sofrem com a fumaça alheia. Passei o fim de semana, por exemplo, numa casa onde respirar significa desbravar a cada vez uma enorme nuvem cinzenta. E ela é mantida e constantemente renovada pelos cinco moradores que fumam pra dormir, pra acordar, pra beber, comer e fazer cocô. O lar exala nicotina e há poeira cinzenta e filtros por todos os cantos.
Entretanto, a impressão que me dá é de que meus pulmões fraquejam mais do que os deles. Falava disso hoje com um cara que entre uma baforada e outra em mim tecia sua deprimente teoria: “Você respira as mesmas quatro mil e tantas toxinas e mais o gás carbônico da tragada alheia; isso quando não respira a outra fumaça, a que não é tragada: ela é aspirada por você sem filtro, nem nada!”. Quis me convencer de que estou pior que ele. Não sei se conseguiu.
Vamos então ao charme. Admita-se que fumar é altamente sedutor! Milhares de jovens concordam e só por isso experimentam. Além disso, fumar é cinema. Se flagrada por luz lateral, a fumaça conota um mistério, uma tristeza esparsa. James Dean de jaqueta, olhos apertados, que lindo: entre dedos a estrela do cigarro. John Travolta cruzando a boate com ele no canto da boca - quanta habilidade: mais alguém a percebeu, entre os embalos de sábado à noite? A bonequinha de luxo, sempre com sua majestosa piteira. Sempre os galãs fumam, sacando lindamente seus maços pobres ou metálicos e sempre o filtro é pardo.
Agora, a confissão: eu bem que gostaria de fumar. Eu poderia. Combina com minha personalidade, com a noite, com tudo o que eu gosto. Lugares frios e bebidas quentes. Penso no charme, mas também na utilidade. Um cigarro para mim, quando sento só para não conversar e sozinha mesma me basto. O cigarro que faz companhia, que ocupa mãos ansiosas e arruma os pensamentos. Não é assim? É então um acessório e tanto. Vou treinar, quem sabe um dia.