quarta-feira, abril 30, 2008

O bom barulho


Fácil esquecer uma dor ou incômodo que já passou. Uma cãibra que faz a gente chorar por dez segundos, precede um quase imediato desprezo pelo sofrimento sentido. Um calo apertado num sapato duro, depois de tirado o sapato, é como se desaparecesse. Pernas dormentes por horas em pé e um corpo pedindo cama deveriam reverenciar solenemente o próximo leito... Mas, simplesmente, a gente se atira ao colchão, à revelia, e dorme profundamente o mais ordinário dos sonos.
Noite passada, quando o avião começou a aterrissar, os meus ouvidos taparam, como de costume. Saquei da bolsa os chicletes que comprei especialmente para o momento, mas dessa vez não adiantou. À medida que a aeronave perdia altitude, eu ficava mais surda, e então, pela primeira vez em anos, comecei a sentir verdadeiramente uma dor de ouvido.
Ao meu lado, uma senhora, falante compulsiva - que até me entreteve quando eu cansava de Hemingway em O Velho e o Mar, mas que neste exato instante de sofreguidão me fez querer tacar fogo naquela cara horrível dela e apagar com um tamanco –, olhou pra mim e achou graça em alguma coisa. Talvez porque eu dizia, quase em transe, “eu vou morrer de dor”. Ela parecia me imitar, tapando os ouvidos, e às vezes rindo. Velha maluca. Eu desconfiei desde que a vi se empolgar demais pra falar de como, do Oiapoque ao Chuí, os brasileiros são diferentes, e de como ela detestava os nascidos em São Paulo.
- Mas menina, paulista é um horror! – ela disse.
- Ainda não conheci muitos – respondi.
E então ela, quase gritando:
- Nossa, eu ODEIO paulista! São muito antipáticos! Insuportáveis!
- Melhor a senhora falar mais baixo, senão a gente apanha – aconselhei.
Na apoteose da dor, hora do pouso, a carioca maluca me chamou pra ver de cima a minha cidade. De noite, com o céu nublado, e mesmo eu com a cara de uma elefanta parindo. Falei qualquer coisa alto demais por causa da surdez e esperei que a dor passasse. O avião pousou. Decidi então, como se pudesse: “quando as portas se abrirem, o ouvido vai destapar”.
Abriram, saímos do avião, peguei a mala, encontrei minha mãe e disse:
- Mãe, estou surda!
Dormi surda, me acordei surda e irritada. Não saí de casa até a hora de ir para a faculdade. Os barulhos do mundo, ou a falta deles, nunca me incomodaram tanto. O capital se esborrachando lá fora e eu isolada na minha bolha acústica, pescando menos da metade de todos os sons e estimando como nunca minha valiosa maquininha de capturar música.
E então, horas depois, dentro da sala de aula, na placidez mais bovina, sem anúncio, e como por milagre, tloc!, meu ouvido destapou!
Soltei aquele riso frouxo que me escapa e me embaraça toda vez que estou sozinha dentro de um ônibus ou andando nas calçadas, e me lembro de qualquer coisa engraçada. Repito em vão o mantra “Joana não ria, não ria”. Mas dessa vez eu me deixei rir, e falei pra todo mundo “gente, meu ouvido acaba de destapar, eu não ouvia desde ontem!”. Meus colegas não deram muita importância, e “Jô, como você é besta!” foi o que eu mais ouvi. Mas eu ouvi. :)

quinta-feira, abril 10, 2008

O dia em que eu dancei "Não vale mais chorar por ele"


Toda vez que encontro meu amigo Wallie, cujas madeixas e barba ruivas colocariam qualquer viking no chinelo, a gente se dá um abraço, com direito a "beijo cheirado" no pescoço um do outro, e aí eu lanço às gargalhadas um tórrido estímulo à sua memória: "E bote aê! Bote aê, bote aê, bote aê...". Ele ri um riso nervoso e revida "Não vai esquecer nunca, né?".
Não vou esquecer mesmo. Não é todo dia que se consegue arrastar o maior metaleiro da cidade para um ensaio da Xinelada (com xis mesmo), a então banda do pagodeiro Beto Jamaica. Foi há um ano e meio, quando novas e inusitadas descobertas escancaravam as portas da minha percepção. E uma vez aberta, através dela passou de tudo, algumas coisas boas, outras nem tanto. Mas, ao contrário do que deve ter concluído meu público de bon goût, Xinelada entrou pro rol dos bons achados.
Eu sentia um fastio de shows e festinhas e não acreditava que aos 19 minha fase festeira já tivesse passado. O problema é que eu achava tudo igual. A mesma praça, o mesmo banco, as mesmas flores, o mesmo jardim. Cheio de ervas daninhas. Nada de novo. As mesmas conversas chatas. Os caras inúteis. As roupinhas descoladas. Musiquinhas, bandinhas. Sair pra quê?
Então, entregue à sorte de um domingo nublado, desgostosa e vulnerável, fui "capturada": aceitei o convite de umas amigas e fui checar com meus negros olhos o supracitado ensaio, já imaginando a piada que seria - afinal, só poderia ser de brincadeira, imagina, eu ir pra um show de pagode.
Lá, adivinhem: sambei como nunca, bebi como há muito não fazia, ri à beça e só vi pessoas rindo. E não foi brincadeira. Todo mundo vestido do jeito que queria. Gente simples, playboys, peruas, tinha de tudo, a única lei era se divertir. Acho que foi aí que eu comecei a entender o que eu procuro numa festa, mas ainda não sei completamente.
Na semana seguinte fui lá de novo. E na terceira, com várias amigas pra ajudar, consegui levar Wallie, que acabou gostando também, eu tenho certeza - apesar de não admitir nem sob tortura.
E agora, neste feriado de semana santa que passou, quis o destino que eu me lembrasse da história logo em Moreré. No sábado de Aleluia, a sensação da vila era o show do Paixão Cigana, grupo de arrocha puríssimo. E lá, com mon chéri a tiracolo e a vila inteirinha, de crianças a velhinhos, eu dancei, bebi, caí, levantei, cantei "não vale mais chorar por ele", e prometi pra mim mesma nunca mais perder uma dessa.

quarta-feira, fevereiro 27, 2008

Ai, minha doce janela

Mesmo eu pedindo clemência e alegando sofrer de alergias pneumáticas crônicas, minha mãe, impávida, adotou ontem, como se eu merecesse castigo, não um, mas dois gatos.
Não obstante, invadiu meu território e quadriculou com uma abominável rede preta a minha até então livre e linda vista para o mar.
Os dois filhotes do cão estão dormindo agora como se fossem anjos. Mas, quem quiser que tenha pena. Tem uma bola de papel e meia que eu atiro sem dó neles a cada espirro que dou. Só eu sei o que foi acordar no meio da noite com essas duas pestes miando, brincando com o meu cabelo, dando voadoras e pinotes fantasmagóricos na penumbra, apavorando o meu sono, ultimamente tão raro.
São gatos de rua recolhidos por um abrigo. Minha irmã disse que nunca tomaram banho e nem são vacinados (não têm idade). Pra piorar, aproveitou pra falar de um amigo que pegou toxocoplasmose – aquela enfermidade terrível em que cresce alguma coisa dentro do cérebro, não sei, um cisto, um fungo, e a pessoa fica cega -, e ele nem sequer se aproxima de gatos. Vida ingrata! Outro dia um amigo me contou da madrasta italiana que, aos vinte anos e casada com um pernicioso fumante, adquiriu um câncer pulmonar sem nunca ter encostado um filtro pardo na boca.
Com a óbvia exceção da criação de peixes beta, é claro que animais não servem pra viver em apartamentos. Soltam pêlos, transmitem doenças, provocam alergias e no fim, ou bem acabam neuróticos, ou provocando a neurose alheia.
Eu não detesto bichos, pelo contrário. Quem acompanha este blog sabe que há algum tempo, através de um post sutilmente embargado de lágrimas, eu comuniquei a morte do gato que aqui morava. Mas Trotski era inofensivo, e antes de tudo, entrou na minha vida antes que eu refletisse sobre a divisão do meu habitat com um animal sem polegar opositor. Agora, isenta da emoção que me fez lamentar seu trágico fim, e sofrendo a implacável alergia que ele me deixou de herança, eu afirmo sem culpa que de certa forma me livrei do bichano quando este alcançou o térreo do prédio sem usar o elevador. Do décimo primeiro andar, coitado.
Acabo de me lembrar de um episódio de quase dez anos atrás. Na quinta série, Aninha e eu éramos as melhores amigas do mundo, e por isso, quando ela ganhou um hamster, eu pintei o terror e também consegui adquirir um. Era divertido confabular com Ana sobre as bobagens que Anfteuton (o meu) e o rato dela, cujo batismo agora me foge, faziam. Tudo sempre associado a comida ou a coisas nojentas: “O meu ontem vomitou um milho!”, “O meu cagou uma semente de girassol!”.
Um dia, Ana perdeu o bichinho dentro do próprio apartamento. Procurou por todos os cantos e nada – afinal, se há uma coisa que um rato deve saber fazer é se esconder. Ao cabo de dois dias, a irmã de Ana teve uma brilhante idéia: espalhar pequenas porções de ração pela casa, a fim de atrair o desertor para o seio da família novamente.
Passada uma semana, Aninha já havia esquecido o assunto.
Neste mesmo dia, durante a madrugada, ela escutou da cama um barulho estranho. Acendeu a luz e foi ver o que era. Lá estava. Era o ratinho, se fartando de ração, comendo vorazmente, e na surdina, como o rato que era. Aninha, que não era fácil, apanhou o bicho com as duas mãos, olhou para ele, pensou “Acho que eu não quero mais isso pra mim” e facilitou a fuga do animal, colocando este sobre o parapeito da janela do 26° andar.
Quando ela contou, eu não acreditei. Abalada por este trauma, nossa amizade nunca mais foi a mesma: desde então associo estranhamente a imagem de Ana ao sanguinolento Macaulay Culkin em “Anjo Malvado”.
Pensando bem, dizem que é até doce a morte de quem se desintegra à velocidade do vento. Como os suicidas nos arranha-céus.
Olhando estes dois felinos que dormem, penso que não é má a idéia.
(Brincadeira, mãe.)

PS: Os bichinhos não têm nome, e pelo andar da carruagem um batizado abominável irá se consumar nos próximos dias: minha irmã sugeriu, pasme, “Bob e Marley”; a outra, dois nomes que a princípio cogitei, depois julguei fanáticos demais, “Fellini e Truffaut”. O máximo que eu consegui foi “Calvin e Haroldo”, mas não pegou. Sugeri ainda “Cairo e Alepo”, duas cidades que ainda vou conhecer, mas fui imediatamente censurada. Gosto também de “Apolo”. Vamos, me ajudem! Aguardo sugestões.

domingo, janeiro 27, 2008

Só mais uma segunda-feira

Do lado de cá da rua, podia-se ver o letreiro de neon com o nome Karol's ainda aceso, piscando. Mesmo com o dia já iluminando a noite fria. Do lado de lá alguém viria que Antenor (lia-se bem grande em sua camisa), sentado na calçada e com os cotovelos sobre os joelhos parecia esperar alguma coisa ou alguém sair de dentro da porta vermelha.
Ele não torceu o nariz nem ensaiou mudar de lugar quando um caminhão de lixo parou na esquina do Karol's. Um cachorro quis fuçar um saco aberto e um dos recolhedores espantou-o com um chute, mas o bicho não protestou - a complacência dos vira-latas. Os rapazes que carregaram o lixo fizeram seu trabalho sem verdadeiramente perceber que havia uma pessoa ali. Se viram, confundiram aquele corpo inerte com o resto da paisagem e seguiram adiante.
Antenor bebia os goles finais de uma cerveja morna, a sexta desde que chegara ali. Com as outras cinco garrafas ele já havia feito um truque, a brincadeira musical em que se bate a chave nos corpos das garrafas quando cada uma contém uma quantidade diferente de líquido. Um tempo depois ele deixou duas delas rolarem pelo asfalto e sentiu uma migalha de vidro acertar sua bochecha quando um ônibus passou pela rua, mas não chegou a se cortar.
Antenor tinha relógio, mas não o olhava. Não era pressa o que ele tinha.
Da sacada da minha janela, vendo aquele homem assim, eu apostei todas as minhas fichas que uma mulher sairia por aquela porta rubra e por algum motivo o faria levantar-se.
De fato, não poderia-se dizer que este observador que do quinto andar vos fala teria tanto azar no jogo assim: afinal foi uma mulher - dona Maria, a dona da cafeteria - quem abriu a porta para que o garçom meio bêbado, meio sonolento e inexperiente se levantasse para começar o novo expediente.

segunda-feira, janeiro 14, 2008

Homem e mulher no telefone às duas da madrugada


“Você sabe, a minha vida é uma caravela cheia de tentáculos”, eu disse.
“Não sei o que fazer com tanta saudade”, ela disse.
“Põe numa garrafa e joga ela no mar. Quem sabe vai parar na Antártida”, eu disse.
“Você não me leva a sério”, ela disse.
“Eu te levo pra andar por aí”, eu disse.
“Vamos andar por aí”, ela disse.
“E ir até o mar em silêncio tomando uma cerveja. E molhar os pés na água gelada”, eu disse.
“Quem sabe chega uma garrafa cheia de saudade”, ela disse.
“De um esquimó que perdeu a moça ou a touca”, eu disse.
“Eu derramaria a garrafa em sua cabeça e te sopraria um feitiço”, ela disse.
“Sua macumbeira”, eu disse.
“Seu cretino amado”, ela disse.
“Está tocando aquela música”, eu disse.
“Estou escutando daqui”, ela disse.
“Fiquei nervoso, fala alguma coisa”, eu disse.
“Você me deve um saco de caramelos”, ela disse.
“Você me deve um strip-tease”, eu disse.
“O que você vai fazer agora?”, ela disse.
“Vou me jogar da janela e já volto”, eu disse.
“Tomar estricnina pra esquecer essa menina”, ela disse.
“E um calmante, um excitante, e um bocado de gim”, eu disse.
“Se você estivesse aqui seria muito bueno”, ela disse.
“Eu vou te visitar daqui a pouco num sonho bom”, eu disse.
“Por favor, não venha num cavalo branco”, ela disse.
“Estou mais pra pangaré. Eu o pangaré e você no meu lombo”, eu disse.
“Vou sonhar que sou o Atacama e você um camioñito de perdidas arenas. Nem tenho pena do tanto de viagens que você vai ter que fazer”, ela disse.
“Nunca sonhei com você”, eu disse.
“Deus te protege de um infarto noturno e fulminante”, ela disse.
“Chata, mas engraçadinha”, eu disse.
“Eu tenho os meus momentos”, ela disse.
“E nós só temos mais uns cinco minutos de prosa”, eu disse.
“E aí game over, como o combinado”, ela disse.
“Combinado, registrado e carimbado num contrato selado com amor”, eu disse.
“Quem diria que essa história ia acabar com as unidades de um cartão telefônico”, ela disse.
“Quem diria tanta coisa, meu amor”, eu disse.
“Tomara que um dia a gente possa ser amigos”, ela disse.
“Tomara que um dia a gente possa estragar essa amizade”, eu disse.
“Sua vida é uma caravela e a minha é uma água-viva. Eu sou uma sardinha e você é um peixe-banana”, ela disse.
“Ela me detesta. Um beijo na boca”, eu disse, e ela disse “Um beijo na testa”.



sábado, dezembro 15, 2007

"Dai-me vinho que a vida é nada"

Às cinco horas do dia seis de fevereiro de 1972, quando voltava do trabalho pelo caminho menos turbulento e mais longo que o ônibus cumpria contornando a orla da cidade, Elton, de súbito, sentiu entrar pela janela um olor insuspeito de mangas maduras (o cheiro da sua infância); ouviu Chico Buarque cantar “Tem mais samba” em um pequeno toca-fitas, vindo do fundo – ninguém ignora que as canções pescadas sem aviso, sobretudo por um rádio, causam uma emoção extra – e decidiu, pleno de sentimentalidades, que precisava mesmo naquele instante fazer alguma coisa que valesse pelo resto de seu dia.
Pensar que todo homem é uma ilha - ele corrigia a frase para si, no íntimo- era escusa para justificar o seu eterno prazer de fazer tudo desacompanhado de quem quer que fosse. Ao saltar numa praça com velhinhos e pombos colorida pela luz do fim de tarde, Elton deixou cair uma lágrima e seguiu, passos sóbrios e sorriso de canto, para a mesa de um café disposta numa larga calçada.
Pediu café, cigarros, uma empada de bacalhau e o disco de Nina Simone para tocar.
Bebeu metade, tragou pouco – a pólvora da seda do cigarro foi mais veloz que o fumante embriagado dos próprios pensamentos – e ficou decidindo, diante de um naco e um gole, se seria melhor o gosto do expresso ou da empada por último na boca. Fora isso, sua cabeça não se atarefava de quase nada: de repente não existia trabalho, relatórios, filho, mulher, mãe doente, guerra ou fome no mundo. Talvez existisse música, ou poesia. Nenhum pensamento. Uma brisa fresca que soprava secou pequenas gotas que brotaram na testa. Um pingo vindo de onde acertou a mesa; ele esmagou a pequenina com o indicador direito. Deixou o dobro do valor debaixo do pires e seguiu andando para casa.
No sobrado modesto, trinta minutos depois, achava-se sentado na poltrona da varanda calçando seus velhos chinelos. Tinha um copo baixo de uísque sem gelo em uma das mãos. Devagar, caminhou até a porta de cada cômodo e, como quem se despede, fitou a sala e a cozinha; depois passou pelo dormitório do herdeiro e se deteve finalmente à porta do próprio quarto. Demorou olhando o leito bem arrumado para ele e a mulher, como um símbolo de paz plena e felicidade. Sentou na beira da cama, alcançou a última gaveta do armário e desembalou de duas caixas e duas velhas camisas uma Ortgies calibre 8 automática. Pôs uma bala, girou o tambor, cogitou não beber mas deu o ardido gole final, mirou a fronte, um pouco à direita, e pela primeira e última vez na vida foi sorteado por uma roleta.

quinta-feira, novembro 29, 2007

A via-crucis virou circo


Belo Horizonte me causou boas impressões nas duas corridas vezes em que estive lá. Coincidentemente, as duas no fim de dois anos consecutivos.
Cheguei sexta-feira da cansativa viagem de ônibus que começou na terça. Ao todo foram dois dias viajando, apenas um ancorada na capital mineira, e o tempo inteiro trabalhando. O mote da empreitada: filmar a ida dos alunos do Circo Picolino, de Salvador, a um espetáculo do Cirque du Soleil.
A maioria nunca havia saído da cidade e me parecia muito menos excitada com este detalhe do que eu, pelo que bem me lembro, quando da minha primeira viagem pra fora da Bahia. Eu tinha nove anos e foi tudo emoção pura: o avião, o ouvido doendo, a cabine, a aterrissagem, "estou no Rio de Janeiro, estou no Rio de Janeiro", repetia em pensamento, como se estivesse pisando em outro planeta.
A inexperiência dos meninos em grandes deslocamentos trouxe alguns incômodos. Meia hora depois da partida, a bagunça no ônibus estava instalada e a criançada abria freneticamente pacotes de salgadinho, biscoito, balas, refrigerantes, emporcalhando o que seria o doce lar das mais de 24 horas seguintes. Temendo aquele furor alimentar, mas também compreendendo eles - finalmente, senhores do próprio horário de merenda -, eu previ. Quando pequena, durante viagens de automóvel eu não podia comer uma azeitona que enjoava. Não deu outra: bem ao meu lado o menino resolve chamar Raul, no banco mesmo. Em certa altura eu até convivia com o aroma, mas senti saudade dele quando um infeliz cometeu o desatino de despejar Kaiak Aventura ali, criando uma alquimia maligna. Não posso mais me aproximar de ninguém que use este perfume – vou deixando aqui como aviso!
Na ida, paramos por um pneu furado perto de cruzar a fronteira do estado e, já nas Gerais, por falência do motor (a primeira de uma série, na volta). Com cada segundo cronometrado, nossa viagem por pouco não foi em vão: chegamos às 20h, exatamente a uma hora do início do espetáculo. Deu tempo de tomar um rápido banho, despejar as bagagens nos frios quartos do enorme alojamento de alvenaria do estádio do Mineirinho e rumar, a pé (em saltos de atleta), até a branca lona itinerante que o circo do sol tradicionalmente arma para abrigar seus espetáculos.
Os cinco primeiros minutos são emoção em estado bruto. Chorei até ficar com dó de mim, mas logo parei, pra desembaçar a vista e não perder nenhum lance. Alegria, o espetáculo que vi, é visualmente impactante: trapezistas de vôo, fogo, malabarismo, bambolês e fitas, coisas lindas voando, instrumentos de sopro acompanhando uma voz de anjo (ao vivo), piruetas, mortais de quatro giros, palhaços lindos, tanta beleza que os olhos não agüentam, fraquejam, desobedecem.
O dia seguinte já era o de voltar, e tudo parecia bastante tranqüilo. Nada como passar a noite paralela ao solo e numa cama que não balança. Tinha guardado bastante fita pra gravar o que a meninada tinha pra contar e voltei bem mais interativa, desfazendo parte significativa da minha cara de má.
Nas poltronas à minha frente, sentavam uma peste de sete anos e Talita, de 14, que às vezes parecia ter a idade da vizinha. Depois de eu ter feito a de sete chorar porque tomei da mão dela um ursinho e escondi, fingindo que tinha jogado pela janela, pra ver se ela ficava quieta - e ela foi falar pra coordenadora, que a fez esquecer tudo rapidinho e voltar pro lugar -, eu ouvi Talita dar o seguinte conselho ao tal projetinho de capeta que enxugava as lágrimas a seu lado:
- Você tem que rezar antes de dormir. Teve uma hora aí que você dormiu e começou a falar umas coisas estranhas, depois começou a chorar. Tem que fazer as pazes com Deus toda noite.
Sentada a meu lado, uma menina que dormiu no mesmo quarto que eu revelou sua recente admiração, me trazendo pro assunto: “Joana também não reza antes de dormir, eu reparei ontem... não sei como ela consegue!”. Respondi didática e musical: “Uns meus, uns teus, uns ateus, uns filhos de Deus”.
Ter visto o espetáculo do Soleil foi transformador, e muito mais o foi o contexto que envolveu minha ida: o contato com aquelas crianças, até então tão esparso. Valeu cada baderna dentro do ônibus na hora do meu sono, valeu a longa espera, cada dor nos olhos quando só o que me restava fazer era ler, valeu batucar no fundão, cantar Soweto, aprender cada letra de arrocha - entrar de vez naquela dança, afinal, se a via-crucis virou circo, eu estou aqui.

quinta-feira, outubro 25, 2007

Tudo brincadeira

Não era feia, mas as comparações que torturam a irmã mais nova de uma lindíssima garota começavam a despontar. Olhava as pernas macias e as mãos de mulher da mais velha e pensava que seus joelhos pontudos e unhas sujas jamais conseguiriam.
Esperava a outra sair para entrar num mundo só dela. Sorrateira, ganhava o quarto, mexia nos adornos da penteadeira, fazia a festa. Empoava-se toda, passava batom, calçava a Anabela da irmã e vestia uma roupa tão comprida que podia fingir de cauda de vestido de noiva.
Deitava então na cama cheia de almofadas, sem nenhum bicho de pelúcia. Feito madame, esgueirava-se até a cômoda para pegar um pequenino espelho e procurar um princípio de espinha - no dia que achou, ficou tão orgulhosa...
Achou também um esmalte, mas não pincelou as unhas porque a cor era forte demais, sua mãe brigaria. Mas, delicadamente, bordou uma quase imperceptível flor na unha do mindinho.
Neste dia sua irmã estaria fora por toda a tarde e ela podia brincar no sonhado quarto até cansar.
Talvez por isso ela, vendo-se calçada naqueles sapatos de pata de elefante, com aquela poeira toda na cara e um batom que mais fazia parecer uma palhacinha, num instante cansou da brincadeira, "deixa essa coisa toda pra outro dia", deu uma piscadinha pro espelho e voltou a ser menina arteira.

segunda-feira, outubro 22, 2007

A sina de Abelardo

Abelardo se achava um azarado no amor desde que deixou uma cigana revelar a sua mala suerte. Antes não, mas depois de lida a sua mão, nada parecia no lugar. Como o dedo de alguém no seu destino, como em uma novela - "Fado Tropical" -, as mulheres de sua vida de súbito ficaram morenas e lindas como as índias mapuches dos olhos de rio doce. Todavia, ficaram repentinamente loucas, algumas com desvario agudo, histéricas, outras com apenas um horizonte de mar perdido no fundo da retina. As doidas assim, mansas - qual filhas de Helena, a cria dileta de Suzana Flag em Núpcias de Fogo - eram as que mais abatiam o palpitante coração de Abelardo, posto que a loucura só lhes acrescentava mais graça.
Já passava das oito quando Abelardo, mirando os próprios olhos no espelho do banheiro, não sem um traço de loucura - veneno herdado dos amores, diriam - decidiu ser o senhor de seu destino. Procurou no oráculo da modernidade - no Google, que tudo ensina - os segredos e significados de cada linha da palma que agora enxugava o suor de sua fronte. Después, com um canivete ou uma peixeira de baiano, consertaria na tora o destino torto com linhas certas. Procuraria a falsa bruxa da Andaluzia, la mueça del tarot, a cigana do corazón de piedra e ordenaria que lesse agouro melhor.
O rasgo que a peixeira fez, segundo a leitura semi-analfa de Abelardo, fadava à sorte de um amor tranqüilo. Com essa certeza ele foi atrás da mulher. Primeiro, pela praia de Piatã. Depois na rodoviária, e lá estava ela, de vestido laranja, sandália de couro, sorrindo um canino de ouro.
- Buenas tardes - ele disse.
- Buenas, mi cariño. Quieres que leia su mano?
- Por supuesto - respondeu em portunhol selvagem, e estendendo a mão cortada, arrematou: - Quero que releia o destino a que usted me condenou.
A cigana tomou a mão de Abelardo, deu um grito, e com cara de espanto saiu correndo, entrou na pista dos ônibus e foi atropelada antes que pudesse completar: “Su destino será muy...”.
Coitado de Abelardo. Se a cigana pudesse prever a sina de amargura que o pobre gajo atravessaria, deixava pra morrer alguns segundos mais tarde. Pior do que carregar uma maldição é a incerteza de tê-la.
Abelardo hoje vaga em busca da cigana que decifre a sorte que ele mesmo desenhou – a última que consultou tinha olhos da cor do Titicaca e cabelos tão compridos que arrastavam consigo todas as folhas, pedrinhas, poeira dos cantos das ruas, de estrelas, sonhos de amores e segredos de alcova dos corações perdidos que encontrava pelas esquecidas veredas sulamericanas.

segunda-feira, outubro 15, 2007

O fiel arrependido

O fiel de uma Igreja negociava a venda de seu carro quando um conselho do pastor fê-lo parar e prestar atenção. Dizia o religioso que vendesse sim o carro, mas que doasse o dinheiro para o templo, num jeito de comprovar a fé ao Senhor ou de pagar o dízimo vitalício antecipadamente. Garantiu que ele muito em breve seria abençoado com ainda mais riqueza. Era certeza divina.
Convencido, o fiel doou seu montante ao culto sem titubear e esperou pela graça celestial. Passou dois dias sem sair de casa, sonhando que algum telefonema avisasse de uma herança milionária ou que o gerente do banco ligasse comunicando um misterioso depósito em sua conta.
Foi à Igreja imaginando que talvez a sua ausência nos ritos estivesse atrasando a chegada da recompensa.
Mas, ao cabo de um mês, nosso fiel caiu em si num vislumbramento; desconfiou como nunca dantes das intenções do pastor quando o aconselhou e chegou à amarga questão: teria ele sido vítima de um golpe?
Sua fé, que era sólida, naquele instante desmanchou-se no ar e ele partiu furioso à procura de um advogado. Sentia-se mais ferido do que lesado, posto que foi por crença e não ganância que decidiu afinal pela investida que o fazia agora um carro menos rico.
No tribunal, o advogado foi brilhante e o júri leu a verdade nos olhos do fiel, que acompanhava com recato o seu defensor e a defesa torpe do acusado. O caso estava ganho.
A Igreja foi condenada a pagar ao fiel o valor de alguns automóveis.
Neste dia, quando chegou em casa, o fiel relembrou cada detalhe da história e se assombrou. De fato ele agora estava mais rico, como sentenciara o pastor!
Uma imensa aflição tomou seu coração. Estupefacto, o fiel reconsiderou as decisões espirituais e decidiu, no dia seguinte pela manhã, comparecer à Igreja para a gloriosa redenção.
Mas quando chegou, foi recebido com nova surpresa: era agora a Igreja que o processava por calúnia, difamação, danos morais e materias... E a audiência seria naquela mesma semana.

segunda-feira, setembro 24, 2007

A estrela do cigarro


Os saudáveis, os puristas e o núcleo familiar leitor que me perdoem mas vou fazer uma apologia politicamente incorretíssima: o assunto de hoje é o cigarro e o discreto charme de se fumar. Não que eu ande fumando, pai, mãe (juro!), nem treinando. É que acho bonito e - pra contrariar o insuportável bombardeio anti-tabaco que entope meu juízo com imagens de bebês em potes, pernas gangrenadas e ratos mortos - acho até, de certo modo, inofensivo.

É claro que pessoas não fumantes como eu sofrem com a fumaça alheia. Passei o fim de semana, por exemplo, numa casa onde respirar significa desbravar a cada vez uma enorme nuvem cinzenta. E ela é mantida e constantemente renovada pelos cinco moradores que fumam pra dormir, pra acordar, pra beber, comer e fazer cocô. O lar exala nicotina e há poeira cinzenta e filtros por todos os cantos.

Entretanto, a impressão que me dá é de que meus pulmões fraquejam mais do que os deles. Falava disso hoje com um cara que entre uma baforada e outra em mim tecia sua deprimente teoria: “Você respira as mesmas quatro mil e tantas toxinas e mais o gás carbônico da tragada alheia; isso quando não respira a outra fumaça, a que não é tragada: ela é aspirada por você sem filtro, nem nada!”. Quis me convencer de que estou pior que ele. Não sei se conseguiu.

Vamos então ao charme. Admita-se que fumar é altamente sedutor! Milhares de jovens concordam e só por isso experimentam. Além disso, fumar é cinema. Se flagrada por luz lateral, a fumaça conota um mistério, uma tristeza esparsa. James Dean de jaqueta, olhos apertados, que lindo: entre dedos a estrela do cigarro. John Travolta cruzando a boate com ele no canto da boca - quanta habilidade: mais alguém a percebeu, entre os embalos de sábado à noite? A bonequinha de luxo, sempre com sua majestosa piteira. Sempre os galãs fumam, sacando lindamente seus maços pobres ou metálicos e sempre o filtro é pardo.

Agora, a confissão: eu bem que gostaria de fumar. Eu poderia. Combina com minha personalidade, com a noite, com tudo o que eu gosto. Lugares frios e bebidas quentes. Penso no charme, mas também na utilidade. Um cigarro para mim, quando sento só para não conversar e sozinha mesma me basto. O cigarro que faz companhia, que ocupa mãos ansiosas e arruma os pensamentos. Não é assim? É então um acessório e tanto. Vou treinar, quem sabe um dia.