terça-feira, março 20, 2007


Adeus, Trotsky!

Foi suicídio felino ou acidente nas alturas, a gente vê amanhã como sairá nos jornais. Tava iminente, o bichinho, mesmo novo; já tinha gastado umas cinco das sete vidas. Gato em teto de zinco quente, o bichano passeava no nosso teto possível, gostando de viver perigosamente...
Quando chegou aqui de mansinho o meu rebento, seu moço, não se aproximava muito de janelas: transmitiu o trauma silencioso nas unhadas que cravava em cada pescocinho que o atentasse. Mas no fim era íntimo delas, confidente das alturas, equilibrista preciso na bordinha do canteiro, de apartamento a outro, como nascido no circo dos gatos - que deve ser aquele de pulgas, né?
Gatos são amigos da “Indesejada das gentes” (vide Consoada, Manuel Bandeira) e por isso granjearam mais de uma chance. Não foi uma conquista grátis, mas não deixa de ter sido na maciota, posto que eles são sempre eles mesmos, senhores de si, sem fingimento algum. A Indesejada se encanta com os seres que não a temem, e concede a eles o que pouco lhes preocupa.
Era um contador de histórias, esse bichano, mas era principalmente um conquistador. Ludibriou todas as fêmeas que um dia pousaram a mão nas suas costas, miando-lhes baixinho histórias de vira-latas boêmios, gatos sem dono, sem filé e sem almofada, sem amanhã, sem jantar, manhãs de atum amargo, sem uma gatinha tão linda a acarinhar-lhes a barriga...
Umas duas vidinhas, tenho certeza, fui eu, deveras distraída, sentando em cima de um volume fofo e disperso nas cobertas. Ele tinha essa mania, não sei se por enorme preguiça ou porque achava muito gostosinho, de ficar inerte quando coberto de repente por um lençol. Permanecia até que alguém viesse perturbá-lo. Podia estar fazendo o calor dos diabos, ele não se mexia e dormia tranqüilo, tranqüilo.
Finalmente, era um lorde. O conde da corte felina de todos os tempos, inseparável de seus princípios - como havia de ser, em nome do que lhe deu o nome -, senhor das rações de prateleira melhor, dos whiskas sabor salmão com molho de anchovas, de filé ao molho madeira & funghi, frango à poivre, do leitinho gelado sempre, senão não tomava, das incontáveis recusas quando, como num agrado, surpreendiamo-no com uma tigela de refeição menor - atum fresco, pastinha ordinária de sobremesa de gato - nada, nada queria, nada aceitava: era um aristogato.

Uma vez escrevi sobre esse bichinho, então recém-chegado das ruas para minha casa. Foi em 2004 e saiu no jornal do grêmio do colégio!

Teoria da Teoria

É irritante como as situações da vida fazem a gente entrar em contradição, e aconteceu-me há poucos dias: logo eu, que nem de longe algum dia fui muito chegada a gatos, ao me deparar com um bichano desses sem-teto, imundo, verminoso e carente, imediatamente declarei a ele meu amor infinito. Fiquei pensando nisso, e consegui elaborar rapidamente alguns protótipos de minha mais nova teoria. Atenção para as proposições seguintes:
1. essas situações que eu chamei de contradições, nada são senão uma construção em cima de uma idéia negativa que adquirimos de alguém, de certas situações da vida ou mesmo de um trauma de infância – e comigo pode ter sido assim: na fazenda, minha avó sempre teve uma penca de gatinhas que, quando davam cria, um espírito “Felícia” baixava em mim e unia-se ao meu lado já perverso de criança: eu pegava os filhotinhos, ainda crus em instinto e os apertava, jogava pra cima, dava banho... não demorava até que se tornassem tão ariscos a ponto de nunca mais se aproximarem de mim;
2. é uma lei de Murphy: como a parte do pão com geléia que sempre cai pra baixo, a fila vizinha que anda sempre mais depressa, uma vez dito que não gostamos de uma coisa, imediatamente o universo inicia uma maliciosa conspiração, para deixar-nos com cara de tacho e com vontade de dar um tiro em Murphy;
3. é uma espécie de sinal: gargalhar com uma piada besta pode ser um alerta para a chegada de um resfriado; uma repentina afeição por animais detestáveis pode significar o reencontro com alguém que mora longe; rir da freira que quase deu estrelinha com um tombo que levou na escada rolante, o próximo a cair é você; cantarolar emocionado uma musiquinha brega: é melhor cuidar do fígado;
4. n.d.a.: esse gato, na verdade, é um agente especial de uma espécie de Al Kaeda do reino animal, uma nova facção terrorista que elaborou um meticuloso sistema de compreensão da linguagem humana, e que envia periodicamente voluntários suicidas (como o meu pobre Trotsky) para os lares de meninas malcriadas como eu (não se engane, pode acontecer com você também!). Quando chegar o momento marcado, minibombas atômicas instaladas nos estômagos felinos se auto ativarão matando todos num raio de 5km.
Ahá, e eu moro pertinho do colégio...
Cuidado e até a próxima!

domingo, março 18, 2007


Dos ciúmes de todas as falenas em dia de show

Eu te amo, Chico. Não olha para elas, olha só para mim. Olha como eu me arrumei toda, no meu lindo vestido de cetim azul de quase casamento, pra você me chamar de anjo blue. Não olha pra elas. Hoje eu coloquei maquiagem, estou linda, juro que pareço saída de um filme. Sofro sobre este salto, mas por você sofro elegante. Não olha para elas. Elas são lindas, eu sei, mas olha para mim. O teatro está cheio, você faz shows o ano inteiro, entendo como deve ser. Mas não olha para elas, Chico.

Olha para mim. Um olhar já basta, tenho certeza, a gente vai se entender. E podemos seguir juntos pra onde você quiser. O que queres que eu seja? Esposa, amiga, amante, caso? Serei sem me forjar e prometo ser de corpo e alma. Mas olha para mim com esses seus olhos azuis e me diga qualquer coisa. Ou não diga. Olha pra cá, Chico. Eu posso não dizer nada, posso dizer o que você quiser. Me conta a sua história. Casa comigo. Foge comigo. Me mostra, me acolhe, me canta, você é o último homem, só você me entende...

Olha pra mim, Chico. Olha como estou linda hoje, para você.

segunda-feira, março 12, 2007


Cinco vidas eu tivesse, cinco vidas gastaria

Ah, se soprasse um gênio, ou mesmo o barqueiro da encruzilhada e me dissesse: "Joana, minha filha, tens cinco vidas para escolher como gastar". Cinco vidas, mon dieu, alguns com nenhuma e eu ainda assistindo às minhas de camarote. Só em uma eu seria macho, pra experimentar e ver que falta graça. Esse "eu" nasceria nos anos 20, carioca, com olhos cor de mel de abelha jataí e com a lábia maior do mundo. O Jorginho Guinle do subúrbio e do coração. Gastaria fácil, conquistando todas, menos aquela, aquela que cria o saudosismo pro fim da vida.
A primeira mulher poderia nascer mexicana - tudo neste século - ou uma mezzo índia sul-americana muito linda, claro. Gastaria parte de minha beleza com os mui guapos e fugiria com o bando de um circo. Falaria bem pouco e soltaria raivosismos guturais quando contrariada. No circo, eu não seria assistente do mágico nem faria acrobacias. Faria números com um tigre que só respeitasse a mim e morreria dele, um dia, nova ainda, atacada com uma dentada na barriga.
Claro... eu seria atriz de cinema.
Uma do quilo de Marilyn, mas sem os deslumbramentos. Uma Rita Hayworth na trama policial da história. Seria Claudia Cardinalle quando não deu bola pra Mastroianni, ou viveria a glória e o fim à la Norma Desmond, mas desprezaria mais o meu último amante. O pneu do meu conversível furaria numa estrada da Riviera e Marlon Brando me socorreria. Seria uma figurante sonhadora e vulgar em Hollywood e faria um roteirista ruim mui mui infeliz.
Uma gran escritora, eu poderia?

"Trilha sonora ao fundo: piano no bordel, vozes
barganhando uma informação difícil. Agora
silêncio; silêncio eletrônico, produzido no
sintetizador que antes construiu a ameaça das
asas batendo freneticamente.
[...] "

E claro, me jogaria...

Seria outra Joana, enfim. Mas uma Joana diferente, não esta corrigida, e sim a de outros rumos, do alter ego ouvido. Uma Joana parideira de cinco Marias briguentas, que nem no poema:

"Vontade de criar filho. Tudo fêmea.
Muitas fêmeas soltas de mim de avental.
Vontade de largar sapato alto
a teoria meia fina e carreira
para ser toda eu criadeira.
Meu quintal minhas crias
um varal cheio de calcinhas.
[...] "

que tal?

quinta-feira, março 08, 2007

Rapidinha de Chico Folha

Meu pai, com uns putinhos minguados no bolso, veio de Santo Amaro para morar em Salvador com 17 anos. Era um gravetinho e tinha uma cabeça gigantesca. Serviu no Exército por um ano usando uma chapeleta estranha, porque não havia capacete possível.
Chico Folha é apelido herdado, um dos meus tios já era o famoso Beto Folha e isso já rendeu uma crônica do Guido Guerra para o Tribuna da Bahia, quando era jornal. Meu pai me fez acreditar durante anos que o "folha" era porque ele lia muitos livros, pobre inocência a minha.
Ele adora contar pra gente os causos que aprontava quando chegou.
(Me conta também os causos que ele aprontava em Santo Amaro, quando menino, e eu juro que não acredito que uma pessoa possa ter sido tão capetinha. É cinematográfico, juro também que conto um desses em breve!)
Passou entre os primeiros no curso de Economia da UFBA, no final dos anos 70. Conta pra gente o que aquilo ali já foi, contaminado, é claro, pela lonjura do tempo e pelas paixões anarquistas da época. Ficou para mim algo como a Buenos Aires dos anos 50, linda, que eu vi em um filme, de jovens letrados, libertos, cheios de papéis e idéias.
Eu sei que o que ele gosta de fazer mesmo é inveja, e consegue, mata de inveja a mim e a minha geração apática, que ele chama careta, que não sente sequer a perda dos valores.
Um dos primeiros lugares que morou foi na pensão de uma tal de Helena, uma megera desalmada que trancava a geladeira a cadeado, resmungava por tudo e servia uma sopa aguada com pedaços de pão seco sem manteiga pros hóspedes famintos.
Dois deles eram irmãos e as exceções. Almofadinhas do cortiço, tratamento diferenciado. A mãe deles mandava guloseimas toda semana numa maletinha trancada, com iogurtezinhos, que iam para a geladeira da alma sebosa, chocolatinhos, biscoitinhos e os nescauzinhos da época. Papai e o resto do núcleo carcerário chupavam os dedos.
Um dia, aconteceu. O dia de fúria, como vemos todo dia acontecer com os pobres meninos nas notícias backtrunk de cidade grande - em escala menor, é claro.
Os meninos juntaram uns trocados e foram comprar algumas latas de cerveja. Subiram para o telhado forrado de dona Helena sem que ela visse. Cada um com umas três latinhas cada. Ficaram conversando e gargalhando à alta madrugada.
Cerveja dá vontade de fazer xixi, e elas tinham terminado mas... deu preguiça de descer. Chico Folha lança a genial idéia de mirar o buraquinho da lata e despejar-se ali mesmo. Uma, duas... em poucos minutos, havia ali seis ou sete latinhas quentes e cheinhas de xixi.
Na hora de voltar, um problema: se descessem com as latas, bêbados que estavam, derramariam em si mesmos. Se deixassem lá, a megera fatalmente descobriria.
Eis que surge a idéia. Estudando cada centímetro do solo com precisão, eles pegaram as latas e despejaram devagarinho por cima do forro, medindo exatamente onde daria no quarto de dona Helena, na cozinha de dona Helena, nos quartos dos filhinhos de dona Helena, e embebedaram de xixi o forro frágil dos tetos e das paredes de toda aquela bendita casa.
Fudidos já estavam, é claro.
Mas pra sabe que está fudido, fudido e meio é delicioso.
Desceram para a casa e arrombaram a geladeira. Arrombaram também a maleta dos hermanitos, fartaram-se. Na cozinha, pegaram bisnagas de catchup, mostarda e maionese e saíram pintando paredes, panelas, chão, roupas do varal. A vingança é um prato que se come quente, diria Oscar Wilde.
Meu pai escreveu na parede: "Helena você é puta"

- Pô meu pai, coitada, uma senhora, mãe de família! E o marido, e os filhos dela?
- Coitada nada, minha filha.

No dia seguinte, ai, ai, ai. Acho que foram expulsos aos pontapés, mas pelo menos deixaram uma marquinha, a resistência no cheirinho de mijo forever, pra ver se dona Helena e quem mais pudesse acordavam pro mundo.

segunda-feira, fevereiro 26, 2007

Ensaio literário


Hoje, dentro do ônibus, quando voltava pra casa, voltei a pensar na crônica de amor que comecei a escrever dias atrás. Está parada num diálogo que não flui, como o que eu descrevo na própria trama. Nunca foi tão difícil escrever uma simples linha. Lia e apagava, tudo parecia tão artificial. Lia novamente e trocava um verbo, depois apagava o parágrafo inteiro. Apagava tudo e recomeçava, depois de já lamentar ter apagado.

Conheci recentemente o meu provável contista preferido para toda a vida, monsier Guy de Maupassant, através do soberbo Bola de Sebo e outros contos. Não é escrita, é um bailado. Ele descreve as personagens e seus conflitos com tanta leveza e ao mesmo tempo com tanta densidade que nos faz pensar que os parisienses do século XIX são nossos contemporâneos. Ele descreve Paris e revela os tipos humanos com suas sutilezas, deixando o conto tomar vida com uma linguagem simples, na medida perfeita, sem exageros, mas com tanta minúcia que parece ter estudado o mundo durante três encarnações para escrever.

Além de leitora e amante do gênero - o gênero dos preguiçosos, como ouvi muito falar sobre os chegados a contos; admito que, às vezes, livros grossos me cansam só de olhar e numa coletânea, começo sempre pelos menores, contando as páginas no índice! -, eu sou uma voraz observadora de estilos descritivos. Muito pelo encanto pela língua, mas muito mais pela vontade de escrever com naturalidade. Com base em poucas regras e no meu gosto, eu me deparo com um texto qualquer e reconheço se há nele uma sinceridade, que é uma espécie de coerência, se é que alguém me entende.

Sei que o bem escrever é perfeitamente ensinável em muitos pontos. Mas escrever ultrapassando a técnica é questão de faro, de tino. Li uma vez que escreve bem quem pensa, logo, se você pensa, escreve. Existem brilhantes poetas que não sabem escrever, mas sabem ditar, ou seja, têm em mente versos encadeados sem precisar desenhá-los...

E a crônica de amor?


Fui pensando no destino deste rebento sem pai, que empacou qual uma mula, enquanto escrevia neste instante. Decidi por uma idéia inovadora, pelo menos no La vie en close. Sei que um blog encanta seus mentores pela possibilidade de interferências externas, que inauguram uma relação muito louca de cumplicidade e de troca imediata de idéias. Borges disse que um escritor só se livra de uma obra quando a publica. Publico e me livro, pois, de um texto interminado para que vocês me ajudem a contar como termina, já que essas duas personagens não quiseram me dizer mais nada. Se disserem algo a vocês, compartilhem, por gentileza.

Sem mais delongas:


Encontro casual



Alguns meses atrás ele havia aprontado poucas e boas e ela conhecera todas as dores do amor.
Naquela tarde ela o viu e deixou que a visse em belos meneios. Olharam-se em frente ao escritório dele, num dia de sol quente. Cumprimentaram-se com surpresa:

- Você por aqui! Quanto tempo...
- Verdade, quase um ano. Como está você?
- Eu estou melhor do que nunca.

Ele achou conveniente convidá-la para se sentar. A ocasião pedia, embora a atmosfera anunciasse uma conversa pouco fluida, como quando se tenta um diálogo com naturalidade com pessoas de que não se gosta ou de quem se tem algum receio. Estavam em um boteco charmoso, decorado com madeira, caseiro mas sofisticado, onde Jorge tomava um chope todos os dias antes de voltar para casa. Ele pediu dois naquele dia.
Ela estava diferente, mais elegante, cabelos cortados e soltos. Tinha um ar renovado. Engordara um pouco, talvez dois quilos ou três, parecia ainda mais graciosa. Na cara dele o indisfarçável cansaço dos que trabalham sentados e, ao se levantar, parecem sempre carregar o próprio corpo como um saco de areia. Estava pálido, havia engordado deselegantemente e uma careca precoce já se ensaiava no topo da cabeça.
Jorge era um rapaz esperto pego de surpresa. Até sentar-se, não pôde conter nenhum indício de que não estaria tão bem. Suava e não encontrava assuntos, enquanto ela sorria, melindrosa, dando demorados goles, se abanando e olhando ao redor. Ele a entendia e observava como pairava em tudo o que ela dizia o ar de quem, numa disputa, sabe que está ganhando.
Ela o fitava sem medo, mas um olhar diferente revelou o momento de deixar os assuntos cretinos de lado. Ela começou:

- Estás namorando?
- Sério, assim, ninguém. E você?
- Estou com o Roberto.

Por muito pouco ele não tossiu com o gole que atravessava a garganta. Perguntou se era... aquele Roberto, e era o próprio. O rasgo de um ciúme adormecido correu o seu peito e ele quase se destrambelhou nas aparências.

[...]

segunda-feira, fevereiro 12, 2007

Sobre João Hélio Fernandes

A Rainha é um filme estrelado tão bem por Helen Mirren que, em certos momentos, faz a gente pensar que ela é a própria Elizabeth. O tempo é um recorte do episódio da morte de Lady Di, em um acidente de automóvel, em 1997. Diana, como se sabe, era separada de Charles e não mais pertencia à família real. O filme apresenta, no interior da diplomacia dos poderes, vários pequenos conflitos diante dessa situação sem precedentes - uma "ex" princesa - expostos através do tórrido temperamento inglês, que não derrama uma lágrima e enxerga humor nas tragédias.


Ex princesa, mas que tinha o título conservado em menções no mundo inteiro. A rainha se via então em uma série de problemas, a exemplo de ter que decidir entre um velório com a pompa de uma morte real, contrariando um milênio de tradição, e o enterro em uma "vala comum", causando repercussões das mais diversas. Enquanto isso, cuidava de outra questão delicada: os dois órfãos que Diana deixara. Com efeito, deixou que a avó falasse antes e fez com que os jovens passassem pelo terror da maneira mais branda possível, longe da exposição e de aborrecimentos.

Viaja com os netos sem dar maiores explicações e enfurece o povo inglês, que interpreta como descaso o que ela, numa boa intenção, pensou estar agindo da melhor maneira. A maneira como achava que uma rainha devia se portar, vestindo o luto silencioso e cumprindo o seu papel antes. Antes o dever, sobretudo para ela, que tinha a vida inteira prometida a ele.


///




Não vou me alongar na descrição do caso por dois motivos. Um deles é que seria redundante, dada a imensa exposição e o conhecimento absoluto sobre o caso. O outro é que tratar disso se tornou uma tarefa insuportável para mim, por outros dois motivos (vão me perdoando pelas ramificações): um, porque sempre me sinto muito mal. O caso é de dar vertigem, de embrulhar o estômago de um bárbaro. O exercício da alteridade, aquele que diz da capacidade de se colocar no lugar do outro, para este caso, eu não recomendo muita intensidade. Não para o menino, não para o lugar da mãe do menino. Não para quem viu nem para ninguém.

O segundo motivo é simples e franco: não suporto meus próprios pensamentos. Sinto vergonha ao me ver ávida por notícias terríveis, percorrendo os informes do horror, querendo, de certa maneira, fazer drama, "novelizar" uma coisa real e tão grotesca. Mas acontece. Quando vejo, lá estou eu à procura de mais sangue, atrás de um novo aperto no peito, de sentir os olhos marejarem sabe lá para que fim, para me provar que coisa.

Serei eu um monstro? Serei eu a única?

Surgem aos borbotões novos lances no Google e novas comunidades no orkut relacionadas à tragédia do menino. Em menos de uma semana, treze mil membros de uma comunidade virtual inteiram um fórum ativíssimo de discussões. Muitas demonstrações de solidariedade e toda a natureza de comentários - a maioria eram pessoas se articulando para efetivar sua revolta. Entre eles o seguinte tópico, a esta altura excluído: "Virou carne moída!", em que o autor anônimo declarava em caixa alta a vontade de ver a "imunda prole da classe média" sofrendo o mesmo fim. Em outro, um apelo desesperado pelas fotos do garoto esfacelado (esse mostrava a identidade).

Gosto de observar como se formam as inflexões do sentimento coletivo. Para um formato de povo, um formato de notícia: difícil decidir quem ditou primeiro. Fátima, a brilhante, é designada a cumprir os papéis de peão entrevistador nas horas em que o bicho pega, quando não pode haver falha alguma. Delicado, veja, ela é mãe também, sabe o que está fazendo. É tão brilhante que carrega uma aura imponente mesmo de cara pros pais órfãos do menino, que entrevistou para o Fantástico neste último domingo. Não é estranho?

Detesto as conclusões rasteiras que demonizam a rede Globo, atribuindo a ela a culpa das deficiências de opinião do povo. Mas a TV no Brasil representa um caso muito especial. Ela é a única verdade e a única conexão com o mundo pra milhões de pessoas. Além de tudo, é linda, emblemática, misteriosa. Um tubo louco de imagens perfeitas onde as pessoas e suas falas são belas. Então o indivíduo, o analfabeto de Brecht, tenta aproveitar, tenta viver desse jeito tão bonito. Transforma-se, vendo as novelas que dizem imitar o seu cotidiano. A televisão adestra, ele dança, copia, se balança com a maré que brinca com os seus sentimentos: "Carro pega fogo com pessoas no porta-malas..." e em seguida: "Esporte! O Corinthians enfrenta o São Paulo...". E dá-lhe bailado, dá-lhe teatralismo. Uma alfinetada nessa pobre alma pra ver se a acorda, por gentileza, para ver se existe vida antes da morte! É assim.

Generalizações são burras, mas eu luto pra não condenar a passionalidade dos trópicos quando lembro o que ocorreu em Madri, há alguns anos, em épocas de atentado terrorista. Dias depois do desastre, estava articulado um movimento nacional em protesto pelo acontecido. Gigantescas passeatas em marcha silenciosa, em luto profundo. Uma conhecida relatou a mim a vontade que teve de fotografar. Mas lá estava ela, com a câmera em riste, qual um fuzil apontado pra cabeça de quem não teme perder a vida. Pareceu estúpida demais e não teve coragem de registrar.


quarta-feira, fevereiro 07, 2007


Aracaju, bon voyage

Viagens de última hora têm tudo pra dar certo porque não deixam tempo pra se imaginar muita coisa. Tudo o que vier é lucro, e ainda na pior das hipóteses, uma viagem sem gracejos vira pauta pra uma conversa distraída ou assunto pra um desses blogs perdidos na vida. "A expectativa estraga os filmes", penso eu, todos os dias, “assim como quase estragou meu venerado Pulp Fiction”. Resgatei-o, anos mais tarde, pensando retificar a estréia falida e me surpreendi: com a vista serena, percebi sem exageros como é deliciosa a trama. E foi assim em Aracaju, cidade que sempre imaginei insossa, mas de onde voltei saudosa neste último domingo.

Na quarta-feira cinza, mezzo tediosa, mezzo calabresa, meu amigo que edita filmes me assalta com uma proposta imperiosa:

- Vou pra Aracaju com meu primo neste fim de semana, quer vir?
- ...
- Festival de graça com Titãs, Vanessa da Matta, Pato Fu e Lenine.
- Hum, que massa! Mas como vamos?
- Ah, aventura, Jojo!
(Palavra perigosa. Acho que ele está me desafiando.)
- Vamos, claro!

A viagem seria na sexta. Adiei, não propositalmente, minha resposta pro último minuto, deixando suspensa no ar uma pequena tensão – o tempero. Partimos pra Aracaju, desviando do caminho pra agregar um quarto elemento e seguimos, todos à bordo do revolucionário Pancho Villa, cabra experiente, conhecedor de causa e das regras herméticas, milhares de quilômetros rodados.
Lá chegando, fomos acolhidos por uma boa alma. O festival, na orla de Atalaia, foi primoroso. O show de Lenine teve até (d)efeitos sonoros: de repente, um apagão sinistro de som e luz que só voltou 15 minutos depois, enquanto ele tentava entreter o público já disperso apontando, doido que só, pro céu de lua cheia.

No fim do show, todos de bundinha na areia filosofando bonito sobre as teorias do amor, quando acontece essa maravilha:
- Ah, ah, ah, ah, ah.
- ???
- É niuma, é niuma. É niuma véi! – disse ele, que brotou do nada ao meu lado, falando através do último dente, enquanto pedia minha mão. Hesitei um segundo, dei a mão e entramos todos no clima:

- É niumaaa!!! É niumaaa! Ô véi é niuma!!!
- Ah, ah, ah, ah. Ainda tem show lá???
- Vá, véi, tem, véi! Mas é niuma!!!
- Ah, ah, ah, ah, é niuma, é niuma! É niuma!

O resto fluiu na maciota. Cervejinha, sol brando, praia e água de coco, embora eu só tenha entrado no mar sergipano cor de barro mesmo pra pular as sete ondinhas, e ainda por pouco tempo, nos últimos minutos do dia de Iemanjá - creio eu que tenha dado tempo. Entre "joanices" (não conhece? É um neologismo que classifica atitudes de, digamos, fácil compreensão) e muita risada, voltamos pra casa, acho que todos bem felizes.

segunda-feira, janeiro 29, 2007

Você conhece a Céu?

Ah, você precisa dela. O mundo precisa. A França já precisava, enquanto a gente nem sabia quem é.

Céu é uma jovem paulistana e dona de uma voz deliciosa, nova, malandra, completamente sedutora. Inteligente e talentosa, mescla samba de raiz e grooves africanos às tendências high-tech da música do mundo, com refinamento e delicadeza. É maestra, ainda menina. Abriu, elegante, um grande festival europeu de jazz em 2006 cantando uma música sua com a Orquestra Sinfônica de Amsterdã. É a nova paixão de Caetano e a promessa de muitos para um novo grande nome na música brasileira.

Disseram que tem música dela em uma novela, foi aberta a brecha. Ou a chaga, pra esses tempos modernos em que a pérola exposta perde um pouco do charme depois de aberta a ostra. E você, ainda não a conhece? Ora...

http://youtube.com/watch?v=IbhSJyg69W0

(no dia em que o blogger fizer tudo o que eu mando, como despachar educadamente os links que eu coloco aqui, eu deixo tudo bem arrumadinho, prometo)

Essa é "Malemolência", canção de autoria de Alec Haiat e Céu. Este é o trecho de um show no programa Ensaio, da TVE, que passou não sei quando.

segunda-feira, janeiro 22, 2007



Problemas com meu septo nasal

Fui à médica das vistas hoje à tarde. Depois de tantos anos, tinha quase esquecido de como são entediantes essas consultas, o interminável arder de olhos, a demora, os incontáveis vai-e-vem, o “volta”, “senta aqui”, “encosta bem a testinha, meu bem, mais um pouco, isso”. Fora a cegueira temporária, lastimosa, as pupilas em flor, as lágrimas de madalena, tudo isso na hora em que eu, aos suspiros, tentava enxergar um pouquinho do García Bernal, o santo colírio pros olhos, com aquelas falas de menino lindo, impávido, tranqüilo, estampadas em uma das vistosas entrevistas da revista Oi.

Pois bem. Rumo à ótica encomendar meu novo rebento de meio grau no olho esquerdo e nenhum no olho direito. Avisei que não queria nada muito chamativo, mas não queria nada também flutuante, sem graça, invisível. Falei que gostaria de uma armação escura, mas que a depender do estilo, poderia ter uma cor alegre.

- Por favor, nada de oclinhos estilo vogue, com um dedo de largura na perna, que eu não quero ficar com cara de besta.

A caríssima me trouxe cinco ofensas. Tive que me levantar pra escolher por conta própria. Peguei cinco, clássicos, sóbrios, discretos, com cara de nada, do jeito que uma moça séria deve usar. Sentei de frente pro espelho e lembrei de Danuza, que maldisse certa vez as luzes escandalosamente brancas dos elevadores comerciais que acabam com a auto-estima de qualquer moçoila, acusando aos berros os cravos nossos de cada dia. Iluminada, me pus a experimentar os brinquedinhos e, antes que eu pudesse falar “gostei desse”, a moça me vem com essa:

- Ah, esse não ficou bom. Você tem o septo nasal grande.”

Meu Deus!!!!!!!!!!!!!!!!

“Você tem o septo nasal grande”, corta para a cena do povo visitando o Homem-Elefante. “Você tem o septo nasal grande”, corta para os médicos o avaliando: “Hum, elefantíase" (hum, septo nasal grande). Meu Deus!!!

- Você tem o septo nasal grande, por isso os óculos não assentaram.

Ah, ta.

- Eu sabia. No fundo eu sabia que tinha algo de errado com esse nariz.

- Peraí, pega esse aqui e experimenta. Aí, ta vendo? Esse ficou bom.

E não é que ficou, menina, “equilibrou as minhas linhas faciais”, “suavizou os meus contornos”, “deu um toque irreverente no meu look”. Ui!

sexta-feira, janeiro 19, 2007

Jovem pede escudo de time, mas tem surpresa

Imagine que você é um jovem torcedor argentino apaixonado por seu time. Passa anos torcendo, vibrando a cada partida, sofrendo com cada derrota. Coleciona pôsteres e grava fitas com os melhores lances. Imagine também que você sempre quis ter uma tatuagem, mas não lhe ocorria um bom motivo. De repente, você enxerga a possibilidade de unir essas duas coisas em algo que tenha um significado igualmente especial na sua vida: uma tatuagem do escudo do seu time!

Você, cabrón, vai corajoso ao tatuador e decreta: “quero o escudo do Boca Juniors aqui, nas minhas costas!!!”. O tatuador pede a você que se acomode e começa a sessão. Bzzzii! Bzzzzzii!! “Dói, mas vai ficar massa”, você pensa. Terminada a sessão, você, afoito, pede ao cara para ver no espelho, mas não tem espelho. Vai correndo para casa. Chega, ofegante, e reúne a família, "Quero todos aqui". É surpresa. Liga para seu avô, o patriarca das gerações de torcedores. Chama os vizinhos e pede pra esperarem. Convoca amigos e amigos de amigos.

Sala cheia, olhos atentos, um acontecimento. Você anuncia: “Eis aqui, amigos e queridos desconhecidos, algo que eu sempre quis ter estampado, para mostrar ao mundo inteiro a coisa de eu que profundamente gosto”, e, de costas, tira a camiseta. Vê as caras de espanto. Confuso, você corre para finalmente ver seu objeto de louvor no espelho, e o maledito te revela a obra-prima do tatuador mais sacana, brasileiro na certa, esse escroto, que lhe rabiscou no meio das costas não um escudo, mas um pênis e dois enormes testículos! Buuuniiito, hein argentino?

terça-feira, janeiro 09, 2007

Histórias de mabaças



[São Cosme e São Damião, do alto de seus tronos diminutos, não imaginariam se tornar o pivô de meus pensamentos em plena segunda feira de ardiloso labor - um dia de verão, para mim, irritantemente ensolarado.]

Trago duas historinhas com a ajuda da memória e do wikipedia:

1. Os relatos sobre os santos gêmeos atestam que eram originários da Arábia, de uma família nobre de pais cristãos, no século III. Estudaram medicina na Síria e foram praticá-la na Egéia e Ásia Menor. Diziam: "Nós curamos as doenças em nome de Jesus Cristo e pelo seu poder". O culto aos dois irmãos é muito antigo e há registros sobre eles desde o século V. Os escritos relatam a existência, em certas igrejas, de um óleo com o seus nomes que tinha o poder de curar doenças e dar filhos a mulheres estéreis. Seus nomes verdadeiros eram Acta e Passio. Surgiram várias versões para suas mortes e uma delas explica que os irmãos realizavam milagres e, por isso, foram amarrados e jogados em um despenhadeiro sob a acusação de feitiçaria. Em outra versão, na primeira tentativa de morte, foram afogados, mas salvos por anjos. Na segunda, foram queimados, mas o fogo não lhes causou dano algum. Apedrejados na terceira vez, as pedras voltaram para trás sem atingi-los. Por fim, morreram degolados.

2. Ártemis, deusa grega da caça e da vida selvagem, saiu primeiro da barriga de Letó e pôde inaugurar seu título de deusa dos nascimentos auxiliando no parto de seu irmão gêmeo Apolo. Zeus, seu pai, presenteou-a com uma corte de ninfas que, como ela, escolheram a castidade e fê-la rainha dos bosques. Uma lenda conta que ela se apaixonou perdidamente pelo jovem Órion e, se dispondo ao casamento, provocou a fúria de seu ciumento irmão. Apolo impediu o enlace mediante uma grande perfídia: achando-se em uma praia, na companhia da irmã, desafiou-a a atingir com a sua flecha prateada um ponto negro que indicava a tona da água e que mal se distinguia, devido à distância. Ártemis, vaidosa, retesou o arco e atingiu tranquilamente o alvo, que logo desapareceu no mar, fazendo-se substituir por uma mancha ensangüentada. Era Órion que ali nadava, fugindo de um imenso escorpião criado por Apolo para persegui-lo. Ao saber do desastre, Ártemis, desesperada, fez com que o pai transformasse a vítima e o escorpião em constelação. Assim, quando a constelação de Órion se põe, a de escorpião nasce, sempre o perseguindo, mas sem nunca alcançar.


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Histórias sobre gêmeos, não sem motivo, sempre me causaram encantamento. Mas poderia tranquilamente não causar, se considerado o sem número de vezes em que tive que parar para responder a perguntas do tipo: "quando uma fica doente a outra também fica?", ou "vocês lêem o pensamento uma da outra?". Ainda a mais freqüente e estupefante de todas: "como é ser gêmea?". Aprendi a retrucar: como é não ser gêmea, se já nasci assim?

O recente nascimento de gêmeos ingleses, um branco e o outro preto, foi manchete por dias nos jornais do mundo inteiro. Embora não corresponda exatamente a um exemplar motivo jornalístico - afinal, como aprendi com minha madrinha de blog Alessandra Alves, o que é notícia não é o cão que morde o homem e sim o homem que morde o cão -, acabo de saber que tal ocorrência é das mais remotas possibilidades matemáticas, sendo inferior a um em um milhão de eventos.
Jornalistas de plantão enumeraram pelo menos cinco recentes casos como esse, mostrando que o acontecido não é manchete tão incomum quanto aparenta.

Para provar a ausência de ineditismo, venho partilhar uma outra história que se iniciou em terras brasilis (em terras soteropolis, pra ser precisa) há exatos dezenove anos. Há este tempo, século passado, ano de 1987, nasciam gêmeas de cores diferentes na cidade do Salvador. Uma branca e a outra preta. O caso despertou espanto na maternidade e um pacto comunhando o silêncio entre os presentes teve que ser feito, a fim de evitar devaneios acerca da moral dos pais e suas crianças. Na agitação, uma pergunta: como esconder algo tão evidente? Tudo era sugestões e soluções mirabolantes naquela improvisada sala de justiça. Diante do problema que urgia por uma saída, uma testemunha sensata elegeu quatro das possibilidades mais providenciais. Analise:

1) Forjando um suposto tratamento de icterícia (doença pouco grave que ataca recém-nascidos), Joana seria submetida a severos banhos de sol de meio dia bezuntada em óleo de urucum com beterraba, enquanto Lígia receberia abrigo absoluto de luz, exceto depois de mergulhada (até o calcanhar) numa bacia de Coppertone;

2) Como era esperado um casal ao invés das duas meninas - verdade verdadeiríssima, houve engano na ultrassonografia e era pra ser Lígia e Victor! Pense que por anos eu sofri a dor de saber que meu nome foi escolhido ao léu, assim, às pressas - podia-se alegar troca nos berçários, criando de brinde o mote pra um posterior novelão no Fantástico;

3) Depois de passar a primeira infância coberta por véus e tecidos, Lígia, ao atingir certa idade, viajaria pelo norte da África ou por ares australianos onde, em contato com aborígenes, adotaria pinturas tribais como devoção religiosa e voltaria ao Brasil pronta pra conviver com a hermana sem levantar qualquer questão;

4) Portadora de raro caso de fotossensibilidade, o bebê Joana seria mandado para os Alpes Suíços onde poderia crescer com mais conforto. Ao cabo de vários anos, curada e de volta ao Brasil, Joana usaria como álibi a falta de calor, de sal, de sol, de cores tropicais que empalidecem, juraria, um negro do Alabama.

Abro a caixa de comentários para que você, caro leitor, dê o seu palpite sobre o enredo da história das mabaças. O final você decide!