sexta-feira, agosto 19, 2011
só love
Perdiam a espetacular vista de gaivotas e barcos na água com o pôr do sol ao fundo. É o amor, que faz eu pensar em você e esquecer dos juros, de Gaza, do furacão com nome de mulher, do livro de Stendhal, do fim da novela...
orora
contos de memórias
i. tenho a impressão de que a tarde foi de um novembro, mas podia ser de maio. em mês de maio a tarde de vez em quando se desmantela daquele jeito. tenho ela inteira na lembrança como um fotograma ou uma foto de lambe-lambe sozinha perdida no resvão de uma casa grande qualquer. é o cinema em que eu perdi as falas, perdi a trilha e as datas. filme mudo de um dia em que eu fui o tolo que carlitos jamais foi.
vou dizer como foi, o mar se estendia liso como um chão encerado. a tarde ardia cor de rosa, você ali sentada na cadeira de palhinha, sorrindo, acho que era pra mim. tomara que naquele segundo eu tenha te dito o quanto te amava, tomara que por isso você tenha me jogado outro daquele sorriso, eu saberia que era amor também.
de repente você se levanta, me dispara um olhar molhado e triste e parte correndo, derrubando a cadeira na areia e deixando pra trás o lenço e o chapéu que eu te dei.
agora eu estou nu, sentado no pisador de uma cela suja, as mãos no saco, rodando ad infinitum essa película espúria na minha cabeça. acho que estou ficando louco, aliás eu já fiquei, esmurrei a parede de pedra e concreto, minhas mãos parecem as do estivador do inferno. eu quase matei um homem, eu fui ter com deus, eu perguntei ao mundo o que eu te disse naquele dia, o que aconteceu, porque eu não lembro. o mundo não me ouve, deus não responde, minha mente não entende
pelo amor de deus, vê se nunca me esquece
ii. Achei no fundo da última gaveta de um criado mudo um anelzinho amarelo, meio amassado. Custou pra eu lembrar, mas a lembrança, quando veio, veio de vez: sete anos, com um vestido de colher alface e pernas de palito eu ia até a venda de meu pai, que vendia de tudo, tudo mesmo, e pedia um pedaço de níquel. era tão normal que meu pai nem perguntava pra quê; acho que cada criança ali deve ter feito esse pedido a ele umas duas vezes, pelo menos. munida do pequenino metal, pra mim mais precioso que qualquer pepita, eu ia até a loja de seu joão e pedia pra ele me fazer um anelzinho. seu joão tinha um maçarico e ia lá pro fundo fazer a peça, eu ficava de fora escutando um barulhinho fino, ardendo de curiosidade. quando ele voltava com a encomenda – nunca se soube que milagre o fazia acertar o tamanho certinho dos dedinhos sem medir – eu quase arrancava minha jóia da mão dele e saía correndo e gritando.
uma vez eu pedi a seu joão pra fazer um um pouquinho maior, que era pra quando eu crescer usar o anel pra sempre. o pra sempre durou um banho no riacho que afundou o anel no sem-fim enlameado.
iii. Dizem que beber faz a gente esquecer as coisas, mas em mim o efeito sempre foi o contrário. A cada gole me sobe à tona uma lembrança esquecida no fundo do fundo dessa memória imprecisa, mas tenaz. Neste mesmo instante, aqui no balcão, tomando um chope pra distrair, uma morena me olhou nos olhos de um jeito que não me olhavam há mais de vinte anos.
eu lembro quem foi, a que horas, que dia e com que roupa a de duas décadas atrás estava vestida. O diálogo que sucedeu a alvejada fuminante foi mais ou menos assim:
ela: o que você tanto olha?
eu: nunca tinha reparado nos seus olhos, eles têm uma cor de... amêndoa.
ela: castanha.
eu: castanho?
ela: Castanha. É castanha queimada.
eu: Pode ser. Não, não desvia. Olha pra mim de novo.
ela: cuidado: o último que me olhou assim não me deu sossego.
Rimos, nos abraçamos e aquelas amêndoas, que seja, castanhas, carambolas, me perseguiram por tantos chopes e sonhos quanto minha cabeça pôde agüentar.
quarta-feira, agosto 03, 2011
Dia de cão
quinta-feira, julho 14, 2011
Começo, fim e meio
à
padaria. E foi mesmo o padeiro que, quando viu Nina, parou de anunciar "olha o pão quentinho" e largou, de olho nela:sábado, julho 09, 2011
Putinha
quinta-feira, julho 07, 2011
"Vou casar com essa menina"
quarta-feira, julho 06, 2011
O gin
sexta-feira, agosto 28, 2009
Fotogenia
E essa é a parte chata da história: fotografia. Porque mais ou menos desde que eu deixei de me parecer com um bebê fofinho, conto nos dedos as imagens de mim em que eu não lembre vagamente uma besta fera.
Ok, foi exagero. Talvez na maioria das fotos eu esteja mesmo com cara de quem pegou uma séria doença infecto-contagiosa. Ou mesmo, pra ser factual, talvez eu pareça a personificação da gripe suína – como na foto em que, com seis anos, eu apareço de braços abertos, boca aberta e narinas assustadoramente dilatadas.
A menina entrou na sala e apontou o revólver, digo, a câmera, para mim, não sem antes perguntar se eu não iria me arrumar um pouquinho. Quase que eu digo “não adianta não, menina”, mas ao invés, chamei minha colega, que passou rímel nos meus cílios de abano e tanta sombra em pó nas pálpebras que, se pingasse uma gota d’água, aquilo viraria a mais forte argamassa e nunca mais eu abriria esses lindos olhos de novo.
Pronto, pronta. Luxo!, diria minha amiga. A fotógrafa só pediu que eu encostasse na parede. “Vai ser uma 3x4, sorria”, ela disse.
Ao final de cinco cliques, posso dizer que tínhamos prontas: uma foto para a propaganda da OMS sobre os níveis de alerta da nova gripe, uma sobre os efeitos de alimentação junkie + vida sedentária, a foto do “antes” para o próximo programa “10 anos mais jovem”, uma pra campanha de vacina contra febre amarela e, como decretou a mesma colega que me maquiou, um poderoso espanta-mosquitos!
sexta-feira, agosto 21, 2009
O sinal (do fim) dos tempos
Nada parece diferente, mas que cheiro é esse? Um cheiro doce. Enjoado. Pego o ônibus e escolho justo o assento onde a esburacada camada de ozônio canaliza não raios, mas flechas pontiagudas de sol sobre este corpo coberto pela preta, cruel e quente indumentária social trabalhística. Até então, nem pista de onde vinha o olor, o odor, o aroma, o cheirinho (que rico nuestro português!), a droga do fedor açucarado que me acordou e segue meu rastro cidade afora. Chego ao escritório e me distraio; checo então os jornais on-line.
E não mais que de repente, EUREKA. Descobri! Madre mia del amor hermoso, como eu não suspeitei? Não consegui ouvir sequer um trote dos quatro cavaleiros do apocalipse, ou os uivos de cães desesperados no mercado do peixe em noite de duas luas? Os círculos de fogo do inferno aquecendo suas caldeiras, maquininhas de fazer demônio a todo o vapor e eu, impassível? Previsões dos astros, bruxas, curandeiras, fadas do mal, nostradamus passaram por mim e eu não vi. Mas lá estava a marca superior da maldade, o sinal definitivo de que os tempos, minhas criancinhas, esses tempos mudaram e que o pior está por vir. E assim ele dizia:
Fãs esgotam primeira edição da biografia do Chiclete com Banana
Pronto, Mundo. Pode se lascar em bandas agora.
quinta-feira, julho 23, 2009
Você também repara nas pessoas?
Deve ter sido um daqueles ângulos inusitados que a gente descobre quando resolve subir no banco pra tirar uma foto, ou quando de repente o nível de um piso acima fica reto na linha dos olhos e a gente depara um mar de sapatos passeando.
Às vezes eu fico olhando as criaturas e brincando de Sherlock Holmes. Li numa história que ele viu calos nos pulsos de uma moça, fitou seu nariz e olhos e já foi adivinhando, qual uma bruxa morena da Andaluzia, que ela era secretária, mãe, precisava usar óculos mas não usava por se achar feia com eles etc...
Então eu vejo que uma menina muito linda e arrumadinha segura um relatório de estágio de uma faculdade de engenharia elétrica; um senhor de roupa esfarrapada lê céline na fila do sus; minha colega que gasta sua beleza trabalhando numa loja de departamentos anuncia que em 15 dias será fotógrafa em Portugal.
Essas surpresas que arrebatam a ordem hermética dos meus pensamentos são o máximo do máximo do máximo do máximo do máximo do máximo do máximo do máximo do máximo do máximo do máximo do máximo do máximo do máximo do máximo do máximo do máximo do máximo.
quinta-feira, julho 09, 2009
A vida, essa caixinha
Mas eu fico pensando.
Já que ninguém sabe o dia de amanhã, e a minha parca matemática me impede de fazer planos de vida que ao mesmo tempo incluam pensar muito no futuro + viver muito o presente, a solução é viver muito o presente e pensar no futuro só como uma coisa que talvez dê certo.
Manuel Bandeira passou a vida tentando tratar uma suposta tuberculose, e por achar que morreria aos vinte, não casou aos trinta, não teve filhos aos quarenta, aos setenta sequer tinha feito algo perigoso. Viveu mais de oitenta anos sonhando com o rei, a cama e as prostitutas da idílica Pasárgada. Ninguém merece uma coisa dessas.
Claro que ninguém merece também ser um tipo destrutivo Raul Seixas que, à parte os bons frutos que sua lisergia seminou, foi um talento destruído pelo excesso dos entorpecentes conhecidos e desconhecidos. Como Bandeira, tenho minhas dúvidas se este conseguiu curtir sua estadia no planeta.
Tem aqueles que dosam a vida do jeito que ela quer: se formam, juntam dinheiro, se casam, perpetuam a espécie e, do nada, o Airbus que levava a família para um verão em Paris vira um parafuso no ar e lança pessoas aos pedaços em pleno oceano.
A vida não tem mesmo explicação. Mas eu conheci gente que se pela de medo quando pensa em envelhecer com alguma daquelas terríveis doenças senis. Será que para estes o perfeito é morrer tragicamente? Aos quarenta, descendo a ribanceira num conversível?
Uma vez eu vi um coelho morto atropelado, todo esbagaçado e pensei: como a vida é frágil, é só essa caixinha. Uma caixinha de costelas.
terça-feira, maio 19, 2009
O dia em que pokemon rimou c'umbanda
(Falando nisso, falei para alguém essa semana a idéia que passou pela minha cabeça. Sabe quando a gente descobre o poema mais lindo do mundo, o filme mais incrível, a canção definitiva? Como é engraçado sair desembestado tentando fazer os amigos escutar elas. Como se o segundo de graça que nos fez escutar com aqueles ouvidos, ver com aqueles olhos, estivesse à toa, assim, solto no ar, pra qualquer um e a qualquer hora)
Yansã ou Iansã foi projetado no Teatro Castro Alves em uma data perdida de 2007, antes da exibição do grande Baixio das Bestas, de Cláudio Assis. Que Cláudio me perdoe (inclusive, trocamos umas palavras depois do filme sobre seu cumpadi e meu amado Xico), mas naquela noite faltaram olhos para Baixios. Só pude pensar numa sequência de manga, no mais futurista Japão, com narração da história original da senhora dos raios.
Aí, como eu dizia, eu quis procurar esse filme e me lembrei do Porta-curtas da Petrobrás. Um site que tem muitos vídeos legais, inclusive Yansã. Coloquei porta curtas e yansã como palavras-chave e tchan, lá estava ele. O quarto onde eu estava tinha gente demais, mas todo mundo, milagrosamente, se sentou e assitiu ao filme. E olha que a gente estava fazendo festa lá em casa. Momento raro de segundos de graça coletivos.
segunda-feira, março 30, 2009
A caretice da juventude
Se pertencer a um grupinho, então piora.
Seus grupos são xenófobos, não aceitam o diferente. Não aceitam o comum. Não aceitam o pagodeiro. Falam mal de absolutamente todos que não têm seus preciosos atributos "in".
Fico tentada a citar exemplos do que eu vejo, mas como sei que o principal defeito desses grupos é a intolerância e a falta de humor, prefiro falar do que eu vi na tv.
Era um episódio daquele programa em que duas mães trocam de família por uma semana. Vai uma pra casa da outra, cumprir todas as tarefas - com exceção das maritais, é claro. Comecei a gostar de ver desde que vi trocas bem interessantes - mãe favelada no lugar de dondoca, família sino-brasileira tradicional recebendo uma mãe nudista, e por aí vai. Na maioria das vezes as experiências pareciam ter sido bem sucedidas. A distância e a convivência com outra realidade fez um pai respeitar a opção sexual do filho, e em outro caso, fez a família ter de novo o diálogo perdido há anos.
A história da semana passada parecia bater os recordes: uma mãe sadomasoquista que morava dentro de uma boite em SP trocou de casa com a dona de casa de uma pacata cidade no Mato Grosso.
Era clara a intenção do casal sadô-masô em chocar. Especulavam a reação dos anfitriãos, ela planejava como "dominaria" a família. No outro lado a mãe, em um almoço de família, dizia estar preparada pra tudo.
O anfitrião da dona de casa preparava ela no caminho até a casa-boite, contando que o lar não era bem tradicional, mas a mulher parecia tranquila. Nao se chocou, realmente, com nada, e muito menos se assustou.
O marido sadô-masô que não ficou muito feliz com a indiferença dela. Começou um jogo de intrigas no estilo Big Brother, em que a dona-de-casa era uma falsa conspiradora, de sorrisinho malicioso, e que ela estava errada em não entrar na "realidade da família", ou seja: praticar os fetiches, como eles!
Enquanto isso, a mãe sadomasoquista experimentava uma semana em que foi muito bem tratada, fez passeios ao ar livre, visitou lugares, e volta e meia confessava às câmeras que não queria voltar a São Paulo, ou que devia repensar a vida que levava na escuridão.
Às vezes, a mãe fetichista falava em tentar "liberar" a "coisa" existente na família que a hospedava. Chegou a tentar. E sua conclusão, unilateral, leva a crer que ela pensa que o sonho escondido de todos os mortais é se "libertar" e poder viver como ela.
A pobre da dona de casa foi humilhada e escurraçada da boite, pelo marido pit-bull que nao aceitava sua naturalidade e simples negação em participar de uma coisa que ela não queria. Assim é que eu vejo como os chamados de caretas são muitas vezes os mais liberais e compreensivos, e os "cabeça-aberta" têm muito o que aprender sobre respeitar a individualidade do outro.
quinta-feira, março 26, 2009
A anti história do cobrador
- Tá certo aqui?
E o velho:
- Tá certinho, dois e vinte.
Viro só pra confirmar o que eu já sabia, que ele sem conferir separaria as de 25, 10 e cinco centavos, botando cada moeda nas partezinhas da caixa de dinheiro. Fico pensando se ele pensou também se faz isso por preguiça ou por saber simplesmente que quem entrega uma mão de moedas raramente dá a soma errada.
Mas vou pensando por mais tempo numa terceira possibilidade. De repente ele teve ali um súbito, inédito acesso de crença na humanindade. Pensou que a vida é muito curta, e que afinal arriscar a confiança é uma chance que damos a nós mesmos. Ou talvez o crédito foi só para aquele velho. Quiçá deduziu que o velho é pobre - e pensou que são os pobres os mais honestos. Talvez ainda por um mistério escondido nos olhos do velho, ou porque o velho é velho, sei lá o que ele pensou. Talvez fui eu com meu boa noite: plin, acendi uma luz. Ou nada disso - na verdade não deve ter acontecido nada, ele em nada pensou, e se na contagem do faturamento faltarem 20 centavos, ele sacode no bolso uma moeda e esquece o assunto para sempre em dois segundos. E isso foi só mais uma besteira que veio assaltar minha mente no tédio de uma volta pra casa.
terça-feira, março 24, 2009
O velho lobo do mar de férias
Até que um dia chegou à vila uma forasteira de mochila, de uns quarenta anos, cabelos longos meio esbagaçados, de vivos e lindos olhos verdes. Curinga se encantou tanto que nem teve coragem de se apaixonar. Foi ela que um dia reparou no coroa tristonho que vivia errando sozinho, perto dos barcos, sem se aproximar de uma alma viva. Ela achou ele tão bonito que procurou um meio de puxar um fio de prosa. Só quando se aproximou dele, viu a face lacerada, como o sorriso forjado de um palhaço triste. Ele também viu que ela viu, e tratou logo de se virar de costas.
- Você tem uma barba bonita, cheia, ela falou.
- É, a barba nem cresce mais nesse lugar.
- Isso é um sinal de que você não é igual a ninguém, ela falou.
E a partir daí viveram juntos, pescaram juntos, se esquivaram de saraivadas de vela juntos - ela, a forasteira velha, como a raposa que ganhou a luta; ele, o misterioso curinga, o velho lobo do mar, mas de férias da velhice para sempre.
sábado, dezembro 20, 2008
Muito tempo
Foi assim que eu vim pra cá: a menos de um mês de fazer essa viagem a Londres, com raras exceções, quase ninguém sabia que eu vinha. E isso inclui pai, irmãos, tios, quase todos os amigos.
Foi assim também com esse blog, que eu agora relendo, acho que mais parece um diário adolescente.
E não era? Talvez. Embora não relate exatamente a realidade, sempre haverá coisas da minha própria vida relacionadas às histórias daqui.
Lembro do meu fascínio na recém-descoberta dos blogs. A incrível troca direta que pode existir numa caixa de comentários. A rapidez de como tudo se forma, discussões, idéias, conhecimento.
Ok, não é só porque eu estou entediada e naqueles dias em que mesmo tendo um monte de coisas pra resolver simplesmente não movo uma palha, que resolvi escrever de volta ao "La vie". Foi um sentimento que bateu de repente. Como o de agora, quando eu me dei conta de que conheci várias pessoas legais e que provavelmente nunca mais eu as verei. E assim a vida vai continuar, cada um pra o seu lado, sem ninguém ter uma pista do que foi feito, amigo.
Isso é triste e ao mesmo tempo natural. E gostoso. Tenho que saber que vai acontecer sempre - isto é, se o plano der certo, que é o de não parar de viajar nunca. E que milhares de pessoas extraordinárias cruzam os destinos umas das outras, mas isso não significa que isso vai durar. São poucos os destinos que depois de um esbarrão se endireitam em linhas paralelas.
Chega de filosofia barata. Quero só dizer que voltei, tô afim de ver o que vai sair da minha cabeça e desses dedos em frangalhos - que retrocesso, eu voltei não só a roer as unhas como a destruir a pele ao redor delas. Quero ver se vou ter coragem de publicar. Quero ver, quero ver. E vocês, vão querer?
quarta-feira, abril 30, 2008
O bom barulho

Fácil esquecer uma dor ou incômodo que já passou. Uma cãibra que faz a gente chorar por dez segundos, precede um quase imediato desprezo pelo sofrimento sentido. Um calo apertado num sapato duro, depois de tirado o sapato, é como se desaparecesse. Pernas dormentes por horas em pé e um corpo pedindo cama deveriam reverenciar solenemente o próximo leito... Mas, simplesmente, a gente se atira ao colchão, à revelia, e dorme profundamente o mais ordinário dos sonos.
Noite passada, quando o avião começou a aterrissar, os meus ouvidos taparam, como de costume. Saquei da bolsa os chicletes que comprei especialmente para o momento, mas dessa vez não adiantou. À medida que a aeronave perdia altitude, eu ficava mais surda, e então, pela primeira vez em anos, comecei a sentir verdadeiramente uma dor de ouvido.
Ao meu lado, uma senhora, falante compulsiva - que até me entreteve quando eu cansava de Hemingway em O Velho e o Mar, mas que neste exato instante de sofreguidão me fez querer tacar fogo naquela cara horrível dela e apagar com um tamanco –, olhou pra mim e achou graça em alguma coisa. Talvez porque eu dizia, quase em transe, “eu vou morrer de dor”. Ela parecia me imitar, tapando os ouvidos, e às vezes rindo. Velha maluca. Eu desconfiei desde que a vi se empolgar demais pra falar de como, do Oiapoque ao Chuí, os brasileiros são diferentes, e de como ela detestava os nascidos em São Paulo.
- Mas menina, paulista é um horror! – ela disse.
- Ainda não conheci muitos – respondi.
E então ela, quase gritando:
- Nossa, eu ODEIO paulista! São muito antipáticos! Insuportáveis!
- Melhor a senhora falar mais baixo, senão a gente apanha – aconselhei.
Na apoteose da dor, hora do pouso, a carioca maluca me chamou pra ver de cima a minha cidade. De noite, com o céu nublado, e mesmo eu com a cara de uma elefanta parindo. Falei qualquer coisa alto demais por causa da surdez e esperei que a dor passasse. O avião pousou. Decidi então, como se pudesse: “quando as portas se abrirem, o ouvido vai destapar”.
Abriram, saímos do avião, peguei a mala, encontrei minha mãe e disse:
- Mãe, estou surda!
Dormi surda, me acordei surda e irritada. Não saí de casa até a hora de ir para a faculdade. Os barulhos do mundo, ou a falta deles, nunca me incomodaram tanto. O capital se esborrachando lá fora e eu isolada na minha bolha acústica, pescando menos da metade de todos os sons e estimando como nunca minha valiosa maquininha de capturar música.
E então, horas depois, dentro da sala de aula, na placidez mais bovina, sem anúncio, e como por milagre, tloc!, meu ouvido destapou!
Soltei aquele riso frouxo que me escapa e me embaraça toda vez que estou sozinha dentro de um ônibus ou andando nas calçadas, e me lembro de qualquer coisa engraçada. Repito em vão o mantra “Joana não ria, não ria”. Mas dessa vez eu me deixei rir, e falei pra todo mundo “gente, meu ouvido acaba de destapar, eu não ouvia desde ontem!”. Meus colegas não deram muita importância, e “Jô, como você é besta!” foi o que eu mais ouvi. Mas eu ouvi. :)
quinta-feira, abril 10, 2008
O dia em que eu dancei "Não vale mais chorar por ele"

Toda vez que encontro meu amigo Wallie, cujas madeixas e barba ruivas colocariam qualquer viking no chinelo, a gente se dá um abraço, com direito a "beijo cheirado" no pescoço um do outro, e aí eu lanço às gargalhadas um tórrido estímulo à sua memória: "E bote aê! Bote aê, bote aê, bote aê...". Ele ri um riso nervoso e revida "Não vai esquecer nunca, né?".
Não vou esquecer mesmo. Não é todo dia que se consegue arrastar o maior metaleiro da cidade para um ensaio da Xinelada (com xis mesmo), a então banda do pagodeiro Beto Jamaica. Foi há um ano e meio, quando novas e inusitadas descobertas escancaravam as portas da minha percepção. E uma vez aberta, através dela passou de tudo, algumas coisas boas, outras nem tanto. Mas, ao contrário do que deve ter concluído meu público de bon goût, Xinelada entrou pro rol dos bons achados.
Eu sentia um fastio de shows e festinhas e não acreditava que aos 19 minha fase festeira já tivesse passado. O problema é que eu achava tudo igual. A mesma praça, o mesmo banco, as mesmas flores, o mesmo jardim. Cheio de ervas daninhas. Nada de novo. As mesmas conversas chatas. Os caras inúteis. As roupinhas descoladas. Musiquinhas, bandinhas. Sair pra quê?
Então, entregue à sorte de um domingo nublado, desgostosa e vulnerável, fui "capturada": aceitei o convite de umas amigas e fui checar com meus negros olhos o supracitado ensaio, já imaginando a piada que seria - afinal, só poderia ser de brincadeira, imagina, eu ir pra um show de pagode.
Lá, adivinhem: sambei como nunca, bebi como há muito não fazia, ri à beça e só vi pessoas rindo. E não foi brincadeira. Todo mundo vestido do jeito que queria. Gente simples, playboys, peruas, tinha de tudo, a única lei era se divertir. Acho que foi aí que eu comecei a entender o que eu procuro numa festa, mas ainda não sei completamente.
Na semana seguinte fui lá de novo. E na terceira, com várias amigas pra ajudar, consegui levar Wallie, que acabou gostando também, eu tenho certeza - apesar de não admitir nem sob tortura.
E agora, neste feriado de semana santa que passou, quis o destino que eu me lembrasse da história logo em Moreré. No sábado de Aleluia, a sensação da vila era o show do Paixão Cigana, grupo de arrocha puríssimo. E lá, com mon chéri a tiracolo e a vila inteirinha, de crianças a velhinhos, eu dancei, bebi, caí, levantei, cantei "não vale mais chorar por ele", e prometi pra mim mesma nunca mais perder uma dessa.
quarta-feira, fevereiro 27, 2008
Ai, minha doce janela
Não obstante, invadiu meu território e quadriculou com uma abominável rede preta a minha até então livre e linda vista para o mar.
Os dois filhotes do cão estão dormindo agora como se fossem anjos. Mas, quem quiser que tenha pena. Tem uma bola de papel e meia que eu atiro sem dó neles a cada espirro que dou. Só eu sei o que foi acordar no meio da noite com essas duas pestes miando, brincando com o meu cabelo, dando voadoras e pinotes fantasmagóricos na penumbra, apavorando o meu sono, ultimamente tão raro.
São gatos de rua recolhidos por um abrigo. Minha irmã disse que nunca tomaram banho e nem são vacinados (não têm idade). Pra piorar, aproveitou pra falar de um amigo que pegou toxocoplasmose – aquela enfermidade terrível em que cresce alguma coisa dentro do cérebro, não sei, um cisto, um fungo, e a pessoa fica cega -, e ele nem sequer se aproxima de gatos. Vida ingrata! Outro dia um amigo me contou da madrasta italiana que, aos vinte anos e casada com um pernicioso fumante, adquiriu um câncer pulmonar sem nunca ter encostado um filtro pardo na boca.
Com a óbvia exceção da criação de peixes beta, é claro que animais não servem pra viver em apartamentos. Soltam pêlos, transmitem doenças, provocam alergias e no fim, ou bem acabam neuróticos, ou provocando a neurose alheia.
Eu não detesto bichos, pelo contrário. Quem acompanha este blog sabe que há algum tempo, através de um post sutilmente embargado de lágrimas, eu comuniquei a morte do gato que aqui morava. Mas Trotski era inofensivo, e antes de tudo, entrou na minha vida antes que eu refletisse sobre a divisão do meu habitat com um animal sem polegar opositor. Agora, isenta da emoção que me fez lamentar seu trágico fim, e sofrendo a implacável alergia que ele me deixou de herança, eu afirmo sem culpa que de certa forma me livrei do bichano quando este alcançou o térreo do prédio sem usar o elevador. Do décimo primeiro andar, coitado.
Acabo de me lembrar de um episódio de quase dez anos atrás. Na quinta série, Aninha e eu éramos as melhores amigas do mundo, e por isso, quando ela ganhou um hamster, eu pintei o terror e também consegui adquirir um. Era divertido confabular com Ana sobre as bobagens que Anfteuton (o meu) e o rato dela, cujo batismo agora me foge, faziam. Tudo sempre associado a comida ou a coisas nojentas: “O meu ontem vomitou um milho!”, “O meu cagou uma semente de girassol!”.
Um dia, Ana perdeu o bichinho dentro do próprio apartamento. Procurou por todos os cantos e nada – afinal, se há uma coisa que um rato deve saber fazer é se esconder. Ao cabo de dois dias, a irmã de Ana teve uma brilhante idéia: espalhar pequenas porções de ração pela casa, a fim de atrair o desertor para o seio da família novamente.
Passada uma semana, Aninha já havia esquecido o assunto.
Neste mesmo dia, durante a madrugada, ela escutou da cama um barulho estranho. Acendeu a luz e foi ver o que era. Lá estava. Era o ratinho, se fartando de ração, comendo vorazmente, e na surdina, como o rato que era. Aninha, que não era fácil, apanhou o bicho com as duas mãos, olhou para ele, pensou “Acho que eu não quero mais isso pra mim” e facilitou a fuga do animal, colocando este sobre o parapeito da janela do 26° andar.
Quando ela contou, eu não acreditei. Abalada por este trauma, nossa amizade nunca mais foi a mesma: desde então associo estranhamente a imagem de Ana ao sanguinolento Macaulay Culkin em “Anjo Malvado”.
Pensando bem, dizem que é até doce a morte de quem se desintegra à velocidade do vento. Como os suicidas nos arranha-céus.
Olhando estes dois felinos que dormem, penso que não é má a idéia.
(Brincadeira, mãe.)
PS: Os bichinhos não têm nome, e pelo andar da carruagem um batizado abominável irá se consumar nos próximos dias: minha irmã sugeriu, pasme, “Bob e Marley”; a outra, dois nomes que a princípio cogitei, depois julguei fanáticos demais, “Fellini e Truffaut”. O máximo que eu consegui foi “Calvin e Haroldo”, mas não pegou. Sugeri ainda “Cairo e Alepo”, duas cidades que ainda vou conhecer, mas fui imediatamente censurada. Gosto também de “Apolo”. Vamos, me ajudem! Aguardo sugestões.